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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1984
(De Julho a Setembro)


23 de julho de 1984

Querido Diário,
Já é muito tarde e não consigo dormir. Tive muitos pesadelos e por fim resolvi ficar acordada. Imagino que Maddy estará cansada da viagem e vai querer tirar uma soneca amanhã à tarde, assim eu dormirei um pouco também. Talvez com o céu claro, meus sonhos não sejam tão escuros.
Um dos pesadelos foi terrível. Acordei chorando e tive medo que mamãe viesse, se me ouvisse, e agora só quero ficar sozinha. Ela sempre vem e canta para mim a Valsa de Matilda quando não consigo dormir ou, como hoje, quando tenho pesadelos. Não é que eu não queira que ela cante para mim, mas é que havia aquele homem estranho no sonho cantando exatamente com a voz de mamãe, e isso me deixava muito assustada a ponto de eu não conseguir me mover.
No sonho eu andava pela floresta, perto de Pearl Lakes, e tinha aquele vento forte, mas só em volta de mim. Era quente. O vento. E não muito distante de mim estava aquele homem grande, de cabelo comprido, as mãos cheias de calos. Essas mãos eram muito peludas e ele as mantinha longe de mim enquanto cantava. O cabelo dele não esvoaçava porque o vento só estava em volta de mim. As pontas dos dedos dele eram pretas como carvão, e ele girava as mãos em círculos à medida que as ia aproximando de mim. Eu continuava andando na direção dele, embora eu não quisesse fazer isso de jeito nenhum, porque ele me dava muito medo.
Ele disse: "Estou com seu gato", e Júpiter correu para trás dele e entrou na floresta, como um risquinho branco num pedaço de papel preto. O homem continuava a cantar e tentei dizer a ele que queria voltar para casa e que Júpiter viesse comigo, mas não consegui falar. Então ele ergueu as mãos no ar, muito alto, como se ele estivesse ficando maior e mais alto a cada instante, e as mãos subiam mais, e eu senti o vento em volta de mim parar e tudo ficar em silêncio. Achei que ele estava me deixando ir porque ele parou o vento com as mãos, assim, e eu achei que ele estava me deixando livre para ir para casa.
Então tive que olhar para baixo porque havia aquele calor no meio de minhas pernas, nada agradável mas quente. Estava me queimando, e eu tive que abrir as pernas para refrescar. Para que parasse de me queimar. E as pernas começaram a se abrir sozinhas, como se fossem se separar do meu corpo, e eu pensei, desse jeito vou morrer, e como as pessoas iriam entender que tentei manter as pernas fechadas, mas elas estavam queimando e eu não pude. Então o homem olhou para mim e deu aquele sorriso horrível, e com a voz de mamãe ele cantou "Você vem dançar a valsa comigo, Matilda..." Eu tentei falar outra vez mas não consegui, tentei me mover e também não consegui, e ele disse: Laura, você está em casa. E eu acordei.
Às vezes, quando estou sonhando, sinto-me presa em uma armadilha e com muito medo. Mas agora, quando olho para o que acabei de escrever, já não
sinto tanto medo. Talvez eu escreva todos os meus sonhos de agora em diante para não ter mais medo deles.
No ano passado, uma noite tive um sonho tão horrível que, no dia seguinte, na escola, não consegui fazer nada. Donna achou que eu estava pirando, porque toda vez que ela me chamava ou tocava em meu ombro na classe para me passar um bilhete, eu dava um pulo. Eu não estava pirando, como Nadine Hurley nem nada, mas ainda me sentia como no sonho. Na verdade nem me
lembro dele, mas só sei que no sonho eu tinha um monte de problemas porque
não tinha me saído bem num teste estranho, em que você tinha que ajudar um
certo número de pessoas a cruzar um rio em uma canoa, e eu não conseguia
porque só queria nadar ou qualquer coisa assim, e então mandaram alguém atrás de mim para ficar me tocando dos jeitos mais ruins. Só me lembro disso, e espero que fique por aí.
Estou cansada de esperar para crescer. Algum dia vai acontecer e eu serei a única pessoa que poderá fazer com que eu me sinta mal, ou bem, ou
qualquer coisa que eu queira.
Falo com você amanhã. Estou muito cansada.
Laura

Posted by LAURA PALMER 3:11 AM




24 de julho de 1984

Querido Diário,
Prima Maddy estará aqui daqui a pouco. Papai foi sozinho buscá-la na
estação porque mamãe não quis que ele me acordasse. Acordei há quinze minutos no máximo. Não tive sonhos, mas mamãe disse que me ouviu chamar por ela e depois eu fiz um ruído como o de uma coruja! Quase morri de vergonha. Ela disse que entrou no quarto e que eu estava meio acordada mas... fiz esse ruído de novo; disse que eu dei uma risadinha, virei-me na cama e voltei a dormir. Espero que ela não conte isso a ninguém. Ela sempre conta às pessoas coisas assim quando estamos reunidos para jantar com os Hayward, por exemplo. Sempre começa com "Laura fez a coisa mais linda e incrível..." E eu sei que posso esperar pelo pior. Outra noite ela disse, na frente de todo mundo, que eu fui dormindo até a cozinha, pouco antes de ela ir se deitar. Tirei toda a minha roupa, enfiei tudo no forno e voltei para a cama. Agora, toda vez que chego perto do fogão na casa dos Hayward, quando Donna e eu ajudamos a servir à mesa, a sra. Hayward faz uma piada, perguntando se eu sei que o forno é um forno e não uma máquina de lavar.
Mamãe bebera um pouco na noite que contou isso, por isso está desculpada. Mas se ela disser a todo mundo que fiz esse ruído, acho que vou morrer. Não acredito que chegue uma hora em que os pais deixem de ser uma fonte de embaraço constante para seus filhos. Os meus não são exceção.
Talvez se eu parar de fazer coisas estúpidas enquanto durmo, ela não tenha nada para contar às pessoas.
Mais tarde eu volto.
Laura
(grr,grr)

Posted by LAURA PALMER 3:11 AM




27 de julho de 1984

Querido Diário,
Tenho muita coisa para lhe contar. Estas palavras chegam até você de
dentro do forte que Donna, Maddy e eu construímos. Papai e mamãe nos deixaram vir, desde que não nos afastássemos muito. Usamos a madeira que Ed Hurley nos deu, e papai enfiou-as no chão, uma ao lado da outra. Donna disse que, se chover, vamos ficar encharcadas, mas acho que dá para agüentar, não importa o que acontecer.
Maddy está muito bonita. Ela tem dezesseis anos, e eu morro de inveja da vida dela! Gostaria de já ter dezesseis! Ela tem um namorado, de quem já
sente saudades, e ele telefonou assim que ela chegou para saber se estava
tudo bem. Papai brincou com ela por causa do jeito que ela atendeu o telefone, mas Maddy nem ligou. Donna acha que quando tiver um namorado firme provavelmente estará com quarenta anos e um pouco surda. Eu disse que ela era louca, porque os garotos já gostavam de nós, e que nós é que não éramos bobas de sair com eles. Fico pensando em como será quando alguém além de meus pais me amar de verdade, e se essa pessoa telefonará quando eu estiver fora para saber se está tudo bem comigo.
Bem, antes nós fomos ver Troy nos estábulos, e o escovamos e o
alimentamos. Donna e Maddy disseram que nunca tinham visto um pônei tão lindo na vida. Eu só espero poder merecê-lo. Há anos que Donha deseja ter um, e o pai dela nunca lhe deu. Será que Troy vai viver muito tempo, e eu vou sofrer muito quando ele morrer?
Donha acabou de ler o que escrevi sobre a morte de Troy, e disse que eu penso demais, e que se eu continuar assim ninguém sabe o que pode acontecer. Donna não sabe tudo o que eu sei. Não posso deixar de ter pensamentos tristes às vezes. São a primeira coisa que me vem à cabeça.
Mamãe fez sanduíches e nos deu duas garrafas térmicas: uma com leite
gelado e outra com chocolate. Maddy não bebeu mais que um copo de chocolate porque diz que dá espinhas. Eu não vejo nenhuma espinha no rosto dela. Ela ficou menstruada pela primeira vez há três anos, e diz que é um pesadelo. Dá cravos, espinhas, e você fica cansada e nervosa o tempo todo.
Ótimo. Outra coisa para esperar. Mamãe ficou menstruada na minha idade, e só espero que isso não signifique que eu também ficarei este ano. Depois do que Maddy descreveu, não estou interessada.
Nós estamos comendo sanduíche e tomando leite, e escrevendo em nossos
diários. O de Maddy é tão grande e tão cheio! O de Donna é mais cheio do que o meu, mas eu vou tornar você muito maior do que o de Maddy. Gosto da idéia de colocar todos os meus pensamentos num único lugar, como um cérebro onde se possa olhar dentro. Nós penduramos uma lanterna no alto do forte para que todas possamos enxergar. Um pouco de luz chegava das janelas da casa, mas nós fechamos todas as cortinas para não estragar a sensação de estarmos sozinhas no meio da mata. Os cobertores e a comida já nos fazem sentir exatamente onde estamos. No quintal atrás da casa!
Maddy disse que trouxe consigo um maço de cigarros e que mais tarde, depois que mamãe e papei forem dormir, se nós quisermos poderemos experimentar. Ela disse que estão mofados porque ela os tem há meses e que não os fumou porque tinha medo que seus pais descobrissem. Talvez eu experimente um. Donna disse que não quer, e Maddy e eu prometemos não insistir porque os verdadeiros amigos não fazem isso. Mas aposto que vou conseguir que Donna fume um para ela ficar na mesma sintonia. Aposto que consigo.

Posted by LAURA PALMER 1:42 AM




29 de julho de 1984

Querido Diário,
Aqui vai um poema.
Da luz que entra pela minha janela ele pode ver dentro de mim
Mas eu não o vejo até que se aproxime
Respirando, sorrindo à minha janela
Ele vem para buscar-me
Girar, girar
Sair e brincar Vem brincar
Relaxe Relaxe Relaxe
Pequenas rimas e pequenas canções
Pedaços de floresta em meus cabelos e minhas roupas
Eu o vejo às vezes perto de mim
quando sei que não pode estar lá
Eu o sinto às vezes perto de mim
e sei que tenho que agüentar.
Quando chamo
Ninguém me ouve
Quando sussurro, ele acha que é uma mensagem
Só para ele
A voz pequena em minha garganta
Penso sempre que devo ter feito alguma coisa
Ou que é algo que faço
Mas ninguém, ninguém vem ajudar,
Ele diz,
Uma menina como você.

Posted by LAURA PALMER 12:34 PM




Mais tarde.
Ah! Eu disse que faria Donna experimentar um cigarro. Maddy foi buscá-los e acendeu um, depois passou-o para mim. Gostei de soprar a fumaça de minha boca. É como se um espírito saísse de dentro de mim, um espírito que
dança, que flutua, muito fino e delicado. Senti-me como se eu já fosse mulher feita, e as pessoas à minha volta olhavam e queriam ser como eu.
Donna disse que eu parecia uma pessoa madura quando fumava. Eu nem
traguei, mas gostaria de saber como é isso. Donna foi a seguinte, e antes que ela dissesse não, eu falei: "Gostei de ter experimentado, e jamais farei isso novamente se não quiser". Então ela pegou o cigarro e soltou umas baforadas de fumaça no forte. Ela também parecia uma boa fumante, mas de repente acho que sentiu medo, engoliu um pouco de fumaça e começou a tossir alto. Então nós apagamos o cigarro e abanamos a fumaça de dentro do forte para o caso de mamãe e papai terem acordado.
Acho que vou comprar um maço de cigarros um dia desses e guardá-los como Maddy. não vou me viciar em nada. Sou muito cuidadosa.
Bem, nós vamos dormir agora, e as três estão neste momento assinando seus diários. Boa noite para você. Acho que vamos ser excelentes companheiros.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:11 AM




Mais tarde.
Estou de volta.
Nós rimos tanto que sentimos o estômago doer. Maddy estava contando como dava beijos de língua no namorado, e isso nos deixou loucas. Donna fez uma careta e disse que não gostava da idéia, e eu fingi achar o mesmo... mas
sinceramente, Diário, quando ouvi como se faz isso, senti um friozinho na
barriga. É diferente de... deixa pra lá. Acho que vou gostar de beijo de
língua e vou querer experimentar com um garoto que eu goste o mais rápido
possível. Maddy disse que a princípio sentiu medo, mas já vem fazendo isso
há um bom tempo e agora gosta muito. Eu contei a elas que no mês passado eu tive febre à noite e fui ao quarto de meus pais, e eles estavam nus, papai por cima da mamãe. Saí do quarto e mamãe veio atrás de mim logo depois com uma aspirina e uma 7-UP.
Ela jamais disse uma palavra sobre isso. Donna disse que sem dúvida eles estavam fazendo sexo, e eu já sabia disso, mas não parecia que estivessem fazendo. Parecia que estavam apenas se mexendo bem devagar, sem nem olhar um para o outro.
Maddy acha que foi só "uma rapidinha". Argh! Meus pais fazendo sexo! Que coisa feia! Sei que foi daí que eu vim, mas não vou me importar se nunca
mais vir isso de novo. Estou fazendo uma promessa agora: se e quando eu
fizer sexo, será muito mais divertido que aquilo.
Bem, mamãe e papai vieram nos dar boa-noite e dizer a Donna que os pais dela tinham ligado para dizer que ela não precisava ir à igreja amanhã e
ficasse dormindo conosco. Foi muito bom ouvir isso.
Papai nos fez fechar os olhos e abrir as mãos, e colocou uma barra de doce na mão de cada uma, pedindo para não contarmos à mamãe. Depois mamãe veio e me deu um saquinho, pedindo para não contarmos ao papai. Havia mais
doces no saco! Maddy só olhou para o dela e suspirou. "Espinhas", foi só o
que ela disse. Mas ela ficou com os seus dois doces desembrulhados enquanto nós duas enfiávamos os nossos na boca e tentávamos falar "Rola, rola, rola a bola" com a boca cheia. Donna disse que as gomas de mascar era um presente que Troy nos havia mandado, e nós cuspimos tudo.
Maddy contou uma história muito boa, e assustadora, sobre uma família que sai à noite de casa e quando volta há pessoas escondidas lá dentro
esperando para matar todos. A história era maior que isso, mas não estou certa se quero me lembrar dela depois. Não quero alimentar meus pesadelos.
Donna foi lá fora fazer xixi, e Maddy contou-me que também andava tendo pesadelos. Disse que não queria falar deles na frente de Donna porque ela talvez não entendesse. Disse que anda sonhando comigo na floresta. Donna
voltou e Maddy não disse mais nada. Será que Maddy viu o homem de cabelo
comprido? Ou o vento? Maddy escreve poemas em seu diário porque diz que às
vezes eles são mais divertidos de escrever do que as velhas besteiras de
sempre, e no caso de alguém encontrar o diário, os poemas seriam mais
difíceis de entender. Vou tentar isso amanhã.

Posted by LAURA PALMER 1:53 AM




30 de julho de 1984

Querido Diário,
Maddy trouxe um monte de roupas e me fez experimentar todas em frente do espelho. Ela disse que eu estava deprimida com alguma coisa... Imagine.
Algumas roupas eram mesmo bonitas. Gostei do modo como me senti dentro delas. Especialmente da minissaia com o pequeno suéter branco e sapatos de salto.
Maddy disse que eu parecia com Audrey Horne. Ela é a filha do homem,
Benjamin Horne, para quem meu pai trabalha. Benjamin é riquíssimo. Audrey
é bonita, mas muito quieta e insignificante. Os pais não prestam muita
atenção nela, e talvez por isso ela seja assim. Mas ele tem sido muito
atencioso comigo, desde que nasci. Sempre que há uma festa ou uma reunião
em Great Northern, Benjamin me faz sentar no colo dele e canta suavemente
em meu ouvido. Às vezes me sinto muito mal por Audrey; quando ela vê isso
fica muito triste e vai correndo para o quarto, e não volta até que sua mãe vá lá buscá-la. Outras vezes eu me sinto bem quando ela sai. É como se eu fosse o centro das atenções, sabendo que sou mais especial para ele que sua própria filha. Sei que não é bonito dizer isso, mas só estou sendo sincera.
Para ser bem sincera, acho que gosto da maneira como fico nas roupas de Maddy. Alguma coisa cresce dentro de mim como uma bolha. Como a gente se
sente em um carrossel quando ainda não se está acostumado às subidas e
descidas. Aposto que se eu me vestisse sempre assim as coisas seriam bem
diferentes.
Maddy e eu demos uma volta mais tarde, mas, claro, as duas com jeans e camiseta. Twin Peaks não está acostumada a ver muitos saltos altos e
minissaias sem bandeiras em toda a volta, anunciando um baile ou um festival. Fomos até Easter Park e nos sentamos no mirante durante algum tempo.
Maddy disse que gostava muito da casa dela, "exceto por algumas
intromissões absurdas de meus pais". Fiz questão de repetir exatamente o que ela disse, porque achei muito bem colocado. Ela disse que há muitas coisas na vida que, para ela, parecem não estar certas a princípio, mas depois você se enquadra.
Talvez eu devesse pensar assim. Talvez eu devesse me tornar uma pessoa melhor e não pensar demais, o tempo todo, no que vai acontecer comigo.
Espero que chegue logo o dia em que eu esteja bastante segura para me afastar de coisas que me perturbam tanto. Coisas que ainda não posso descrever a não ser um pedaço aqui, outro ali. Se eu fosse uma pessoa melhor, e se eu me esforçasse diariamente, talvez tudo isso funcionasse.
Amor, Laura.

Posted by LAURA PALMER 12:36 PM




30 de julho de 1984, mais tarde

ALGUM DIA CRESCER SERÁ MAIS FÁCIL
Lá no fundo estão os desejos da mulher de sair
Ver o céu
Ver o sol e a lua
E as diminutas estrelas na noite da mão de um homem
Às vezes pela manhã
Olho através de mim
E vejo vales e montanhas
Imagino rios subterrâneos.
Fora de mim
Floresço
Dentro estou secando
Se eu pudesse entender
A razão de meu pranto
Se pudesse parar a razão deste medo
De sonhar que estou morrendo.

Posted by LAURA PALMER 1:40 AM




2 de agosto de 1984

Querido Diário,
Há muito tempo não tenho escrito, e por isso peço muitas desculpas. Maddy foi embora há três dias, e sinto um medo terrível de alguma coisa que não estou entendendo.
Aconteceu uma coisa boa. Ontem, no meio da noite, tive dentro de mim a mais maravilhosa sensação. Era como um calor em meu peito e entre minhas
pernas. Todo o meu corpo parecia estar vindo para fora, e era como se eu
pudesse voar. Acho que tive um daqueles orgasmos durante o sono. É tão
estranho e tão embaraçoso escrever, mas ao mesmo tempo é uma sensação
muito boa.
Logo depois disso, tive uma fantasia de que um garoto entrava no meu
quarto e enfiava a mão dentro de minha camisola e me tocava suavemente. Ele murmurava coisas bonitas e gentis, e depois disse que eu tinha que ficar bem quietinha ou ele iria embora. Então ele me puxou pelos pés para a extremidade da cama, e quando meus joelhos se dobraram para fora do colchão, ele me fez fechar os olhos e eu senti ele me abrir, cada vez mais, e eu tinha que abrir os olhos para ver o que estava acontecendo, mas quando eu o fiz ele já tinha desaparecido. Mas olhei para minha barriga e vi que estava grávida. Ele estava dentro de mim como um bebê.
Gostaria que não tivesse terminado assim. Não sei por que minha cabeça faz isso.
Gostei mais quando ele me puxou para baixo gentilmente e suavemente fez o que quis.
Laura.

Posted by LAURA PALMER 1:50 AM




7 de agosto de 1984

Querido Diário,
Hoje passei a tarde com Troy, limpando, escovando e dando comida para ele. Fiquei fascinada por quanto ele parece entender o que estou sentindo. Ele esfregava o focinho em mim enquanto eu escovava seu rabo e sua crina, e
quando me sentei num canto da cocheira, ele baixou a cabeça e eu deixei que ele cheirasse todo meu pescoço e meu rosto. Será que as pessoas se apaixonam tanto pelos seus cavalos quanto eu pelo meu? Ou eu estou errada por pensar ou sentir todas essas coisas?
Gostaria que Donna estivesse aqui. Vou telefonar para saber se ela pode dormir em casa ou qualquer outra coisa. Talvez eu durma na casa dela.
Seria até melhor. Às vezes meu quarto é o melhor lugar do mundo, outras é
como um lugar que me prende e me sufoca.
Será que é assim quando se morre... sufocante? Ou será que é como dizem na igreja. Que você vai flutuando, flutuando, até que Jesus lhe veja e pegue em sua mão. Não tenho certeza se quero estar perto de Jesus quando morrer. Posso cometer um erro, por menor que seja, e deixá-lo triste.
Não conheço muito sobre ele para saber o que pode deixá-lo irritado. Claro, a Bíblia diz que ele sabe perdoar e morreu pelos meus pecados e ama todo mundo, não importa o erro que cometeram... mas dizem que sou uma filha perfeita, a menina mais feliz do mundo, que não tenho problema nenhum. Isto não é absolutamente verdade. Como posso saber então se Jesus gosta mesmo de mim? Uma pessoa assustada, às vezes má, mesmo que as pessoas não saibam como
nem quando? Provavelmente eu serei um presente para Satã, se não me cuidar. Às vezes, quando tenho que ver BOB, penso que estou com Satã, e que nunca me livrarei da floresta a tempo de voltar a ser novamente a boa, verdadeira e pura Laura.
Às vezes penso que a vida seria muito mais fácil se não tivéssemos que pensar sobre ser meninos ou meninas, homens ou mulheres, velhos ou jovens, gordos ou magros... se pudéssemos todos ter certeza de que somos iguais. Talvez fosse chato, mas o perigo da vida e de viver não existiria...
Voltarei depois que telefonar a Donna.
Donna gostaria que fizéssemos alguma coisa juntas esta noite, mas hoje eles vão ter uma "noite familiar". Acho que seremos só eu e você, Diário.
Talvez possamos ir à floresta e fumar um dos cigarros que Maddy deixou para mim. Tenho quatro, e escondi-os muito bem no balaústre da cama. É lá que escondo os bilhetes da escola que não quero que mamãe encontre quando
vem aqui fazer limpeza - você conhece a mamãe. Eu a adoro, mas ela nunca
entende o que tento lhe dizer. Provavelmente ela teria um ataque se soubesse todas as coisas que passam pela minha cabeça. Bem, a madeira do balaústre sai e ali tem um buraco. Papai chamaria de "cavidade". Tem mais ou menos dez centímetros de profundidade e é um esconderijo perfeito. Ninguém percebe se houver uma bolsa ou um suéter pendurado nessa madeira.
Então a gente pode sair, só você e eu, levar uma lanterna e um cigarro e conversar um pouco. Eu sei que você, ainda mais que Donna, consegue
guardar um segredo. Jamais poderia dizer a mamãe as coisas que penso sobre
sexo. Tenho medo que se isso sair da minha boca Deus possa ouvir, ou que
alguém fique sabendo como sou má e dizer... Ninguém jamais pensa essas
coisas!
Aposto que não pensa mesmo. Aposto que nunca vou conseguir o homem que eu quero porque sempre que formos nos beijar ou andar por aí ele me achará uma pessoa maluca, doente e estranha. Espero que eu não seja isso. Eu
ficaria terrivelmente triste se fosse verdade. Como posso parar de pensar
dessa maneira? Não posso impedir minha cabeça de querer pensar coisas como
essas. Os pensamentos que aquecem meu corpo, fazem meu peito subir e
descer, enchendo de ar e deixando sair, como acontece nos livros e nos
filmes, mas um pouco diferente, porque eles nunca falam das fantasias que
eu tenho.
Vou descer agora para jantar. Gostaria de poder esconder você também no buraco da cama. Por enquanto vou prendê-lo na parede com uma fita, atrás
do meu quadro de avisos. Espero que você não caia!
Até mais

Posted by LAURA PALMER 2:31 PM




16 de agosto de 1984

Querido Diário,
Jamais estive tão confusa. São exatamente 5h30 da manhã, e mal consigo segurar esta caneta de tanto que estou tremendo. Estive de novo na
floresta. Perdida. Mas fui trazida de volta. Acho que sou uma pessoa muito
má. Amanhã começarei uma nova vida. Nunca mais terei maus pensamentos. Nunca mais pensarei em sexo. Talvez assim ele pare de vir, se eu me esforçar para ser boa. Quem sabe não consigo ser como Donna. Ela é boa. Eu sou má.
Laura
P.S.: Prometo, prometo, prometo ser boa!

Posted by LAURA PALMER 2:44 AM




31 de agosto de 1984
Querido Diário,
Há anos que não escrevo porque estou me esforçando muito para ser feliz e boa, e procuro estar sempre rodeada de pessoas para que nunca mais possa pensar em coisas erradas. Mas hoje vou escrever em você para lhe contar as novidades.
Fiquei menstruada. Não é nada daquilo que eu pensava. A escola começará na próxima semana, e agora isto. Eu estava saindo da cama esta manhã e vi o sangue. Chamei mamãe, e é claro que ela fez o maior barulho por causa
disso. Telefonou a papai, quando lhe pedi que não contasse nada a ninguém.
E agora todo mundo em Great Northern já está sabendo. Tudo o que eu queria era um maldito absorvente ou qualquer outra coisa, e ela começou com a
história de que agora sou uma moça e tudo mais. O.K.. O.K.. É mesmo uma coisa
muito especial. Mas que só vai piorar tudo se eu não tomar cuidado. Estou na cama agora com cólicas.
Mamãe pôs a televisão no meu quarto, o que é bom, e estou com uma bolsa térmica na barriga e toneladas de aspirinas no criado-mudo. A televisão
não me interessa muito, então me restam novamente os estranhos pensamentos
sobre a vida e sobre... outras coisas. Aposto que o que está saindo de mim
devia ser a fonte de vida de um outro ser. Fico feliz por não ter nada
dentro de mim agora. Pelo menos não um bebê.
Às vezes acho que há alguém dentro de mim, mas que é uma parte estranha, separada de mim mesma. Às vezes consigo vê-la no espelho. Não sei se vou querer ter filhos. Algo acontece com os pais, ou com as pessoas que se
tornam pais. Acho que eles esquecem que já foram crianças, e que algumas
coisas podem envergonhar ou aborrecer seus filhos, mas eles esquecem ou
resolvem ignorar isso. Muitas coisas más acontecem comigo no meio da noite, por isso acho que jamais seria uma boa mãe. Isso me deixa triste.
Estou contente com uma coisa. Júpiter está na cama comigo, e ronronando baixinho. Como você, Diário, ele jamais me criticaria.
Laura

Posted by LAURA PALMER 2:46 AM




1º de setembro de 1984
Querido Diário,
Meus seios doem, o que é absurdo porque eles são muito pequenos. Concordo que estão maiores que na semana passada, e com certeza mais bonitos. Os bicos estão sempre duros. Mas como doem!
Mamãe veio logo cedo e nós tivemos uma boa conversa. Eu disse que preferia que ela não tivesse contado a papai sobre minha menstruação, e ela pediu desculpas mas disse que só contou porque sabia que ele ficaria orgulhoso por sua garotinha ter se tornado uma moça. Ela trocou a água da bolsa térmica e esfregou minha barriga durante um tempo. Não precisávamos dizer nada uma para a outra, e ainda assim era como se estivéssemos conversando.
Ela deitou na cama junto comigo por aproximadamente uma hora depois disso e me fez dormir em seu ombro. Quando acordei dividimos uma lata de
soda-limonada, e pela primeira vez depois de muito tempo senti que éramos
realmente amigas.
Espero que hoje eu consiga dormir a noite toda.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:48 AM




9 de setembro de 1984
Querido Diário,
Descobri uma coisa sobre mim mesma. Lembra-se quando lhe contei que uma noite acordei com uma sensação maravilhosa? Pois bem! Há um lugar especial em meu corpo que me faz sentir aquilo sempre que eu quiser. Um lugar
fantástico e delicioso, onde tudo se dissolve e eu estou livre para me sentir bem. Meu botãozinho vermelho secreto. Ele é todo meu. Por fim, uma coisa que me levará para dentro de minhas fantasias. Posso fazê-lo em minha cama, bem suavemente com a ponta do meu dedo, o que é tão gostoso. Posso fazê-lo na banheira, com a água que sai da torneira (nunca imaginei que um banho pudesse dar tanto prazer!). Ou no chuveiro, com a água caindo de cima. Eu me mexo, meu corpo salta, e às vezes tenho que agarrar o travesseiro e colocá-lo sobre a cabeça, porque em geral é noite e alguém pode ouvir os barulhos. Afinal de contas, é um segredo, e se está certo ou errado, eu me sinto muito bem e ninguém precisa saber, a não ser você, querido Diário.
Já faz quase uma semana que tive a primeira menstruação e agora está sendo esta descoberta maravilhosa. Agora começo a me sentir uma mulher, e um dia, talvez, não vai demorar muito, vou dividir isto com alguém especial.
Boa noite! Boa noite! Boa noite!
Laura
P.S.: Espero de coração não estar fazendo nada errado quando me toco.
Espero que todas as garotas também façam, e que eu não seja castigada por
isso mais tarde.

Posted by LAURA PALMER 2:50 AM




15 de setembro de 1984
À pessoa que invadiu minha privacidade:
Não posso acreditar na desconfiança que tenho de minha família e de meus amigos. Tenho certeza de que alguém encontrou meu diário e o leu, talvez
mais de uma pessoa. Não vou mais escrever neste diário durante um bom tempo, talvez nunca mais escreva. Você destruiu a minha confiança e minha sensação de segurança. Odeio você por isso, seja quem for!
Nestas páginas escrevi coisas muitas vezes assustadoras ou embaraçosas, até mesmo para mim se as ler novamente... Confiei que estas páginas só pudessem ser viradas por mim, somente quando eu quisesse.
Muitas coisas estão me magoando e deixando-me confusa. Eu preciso deste diário, para poder enxergar minha cabeça por dentro, trazendo-a para fora. Por favor, fique longe dele.
Estou falando sério.
Laura

Posted by LAURA PALMER 2:51 AM

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