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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1985
(De Outubro a Dezembro)


3 de outubro de 1985
Querido Diário,
Resolvi, depois de um ano, voltar a falar com você. Encontrei um
esconderijo, do qual não vou falar, para o caso de você ser encontrado fora dele e algum abelhudo querer saber onde é.
Sei que não foi culpa sua ser encontrado e alguém ter resolvido espiar dentro, mas precisei de um longo tempo até me sentir segura o suficiente para escrever outra vez em suas páginas. Muitas, muitas coisas aconteceram desde a última vez que você ouviu falar de mim, e muitas delas provaram que meus pensamentos sobre o mundo ser um lugar cruel e triste estavam certos e foram confirmados.
Eu não confio em ninguém, quase nem em mim. Foram muitas manhãs, tardes e noites de batalha para saber o que é certo e o que é errado. Não sei se estou sendo castigada por algo que fiz de errado, algo de que não me
lembro, ou se isso acontece com todo mundo e eu que sou uma estúpida por não entender isso.
Em primeiro lugar, descobri que não foi papai que me deu Troy. Foi
Benjamin Horne. Os detalhes não importam, mas digamos que eu tenha ouvido
Audrey discutindo com o pai sobre isso, quando eu estava em Great Northern
visitando Johnny. Johnny é irmão de Audrey, outro filho de Benjamin. Ele é
retardado. É mais velho do que eu, mas tem mentalidade de uma criança pequena. Pelo menos foi o que disse o médico.
Às vezes penso que ele só escolheu ficar quieto porque é muito mais
interessante apenas ouvir as pessoas em vez de falar com elas. Ele nunca
fala, exceto "sim" e "índio". Ele adora índios. Ele usa constantemente um
cocar. É um feito com lindas penas coloridas e tiras de couro. Em seus olhos o mundo é uma mistura de alegria e dor, e acho que entendo Johnny mais do que entendo muitas outras pessoas. Talvez eu encontre um jeito de passar mais tempo com ele. Em geral eles o deixam sozinho durante muito tempo.
Fico contente de Troy ser meu, e adoro andar nele, caminhar com ele ou só olhar ele raspar a pata no chão. Mas agora me sinto constrangida com
papai. Como se ele fosse menos honesto por ter dito a todo mundo que Troy era um presente dele. Talvez Benjamin tenha querido assim, não sei. Não importa o que seja, de alguma maneira Benjamin me deixa intrigada, e é como se eu pertencesse mais a ele do que a papai.
Às vezes acho que seria melhor não ter um pônei só meu, porque assim não teria perdido o respeito por papai, e Benjamin teria continuado a ser só
Benjamin. Pior que isso, Audrey e eu nunca mais vamos nos entender. Eu me
sinto um pouco mal por ter sido a causa de tudo. Por outro lado, me dá uma
sensação de poder. Por que essas coisas acontecem comigo?
Sabe, de todos os homens que conheço, o dr. Hayward tem sido o mais
carinhoso comigo. Ele não é egoísta, é gentil, e tem sempre um sorriso de
perdão e incentivo para mim - ou de qualquer outra coisa que de alguma
maneira preenche este vazio que sinto. Há treze anos, ele me trouxe ao mundo e segurou firme meu corpinho, só por um momento. Em minhas fantasias, imagino esse momento como um dos mais carinhosos de toda a minha vida. Eu o amo por ter me segurado, aquela criancinha recém-nascida, assustada com o ar e com a luz, e por me fazer acreditar, sem nunca ter dito uma só palavra, que me seguraria novamente sempre que eu precisasse. Ele me faz lembrar alguém que não me importaria ver todos os dias de minha vida. Um avô carinhoso, dentro da mão protetora de um pai.
Voltarei depois do jantar. Há muito mais novidades.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:54 AM




3 de outubro de 1985, mais tarde
Querido Diário,
O jantar estava ótimo hoje. Um dos meus pratos favoritos, panquecas de batata com creme de milho e vegetais. Vou ter que começar a mudar o meu
jeito de comer, ou corro o risco de engordar como um balão. Mamãe fez essa
comida especial para mim porque sabe que ainda estou triste por causa de
Júpiter. Ela e papai comeram galinha.
Júpiter é a notícia. Geralmente ele sai para brincar no quintal. Lá não há cerca, mas ele nunca fugiu. Acho que era esperto demais para sair da casa de pessoas que o amavam tanto, que o alimentavam tão bem. Embora eu não
escreva com freqüência sobre ele, era uma das coisas mais importantes que
havia para mim, sempre tão doce e tão delicado. Sempre gostou de mim, não
importava como eu estivesse ou o que tivesse feito de certo ou errado
naquele dia.
Sempre, nas noites em que eu não conseguia dormir, nós dois íamos brincar lá embaixo com um novelo de barbante, somente com a luzinha de um abajur acesa. Depois ele adorava tomar um sorvete na cozinha. Baunilha era o seu preferido. Com a casa escura, nós dois ficávamos ali até o sono chegar,
horas depois de já termos desistido de dormir. Ainda tenho uma foto que papai tirou de nós dois no sofá da sala, depois de uma dessas noites. Não houve tempo de voltarmos para cima e dormimos ali mesmo no sofá.
Dei essa foto ao xerife Truman para que ele mostrasse na delegacia. Espero que encontrem quem atropelou Júpiter. Provavelmente foi um acidente,
porque minutos antes de acontecer, ele tinha encontrado um rato ou qualquer coisa assim... Não prestei muita atenção, mas ele saiu correndo atrás e foi pego por um carro. Mamãe ouviu o barulho e mandou-me ficar onde estava até saber o que tinha acontecido. Mas às vezes mamãe e eu pensamos as mesmas coisas, temos os mesmos sonhos, e ela sabia que eu não ficaria no quarto se soubesse. Mas eu não ouvi o que ela disse e saí para vê-lo; ele ainda respirava, mas sangrava pelos olhos e pela barriga.
Não posso acreditar que alguém atropele um gato como ele, em pleno dia, e não diga nada a ninguém. Que não pare para pensar e não vá à casa mais
próxima para contar o que aconteceu. Mamãe ouviu o carro frear, e papai disse que se estivesse em casa saberia que tipo de carro era só pelo barulho do freio. Duvido, mas foi um pensamento bonito.
Agora ele está enterrado lá fora. Um bom amigo se foi, quando eu preciso tanto deles. Preferia que outra coisa tivesse morrido em vez de Júpiter.
Para ser sincera com você, como tenho sido sempre, muitas pessoas em Twin Peaks gostam de mim. Muitas sabem meu nome, e na escola sou muito popular. O único problema é que realmente não conheço nenhuma dessas pessoas da maneira que elas pensam que me conhecem. E acho que posso dizer com
segurança que elas não me conhecem de jeito nenhum. Donna é a única. Mas ainda tenho medo de contar a ela minhas fantasias e meus pesadelos, porque às vezes ela consegue entender e outras fica dando risada, e eu não tenho saco de perguntar a ela o que há de tão engraçado. Então fico me sentindo mal outra vez e calo minha boca por um bom tempo.
Gosto muito de Donna, mas às vezes fico com medo que ela não fique do meu lado quando souber o que se passa dentro de mim. É negro e escuro, e recheado de sonhos com homens muito grandes, e os diferentes modos de eles me pegarem e me submeterem à sua vontade. Uma princesa encantada que pensa ter sido salva da torre, mas descobre que o homem que a pega não está lá para
salvá-la, e sim para entrar dentro dela, muito fundo. Para domá-la como se
ela fosse um animal, mexendo com ela, fazendo-a fechar os olhos para ouvi-lo dizer tudo o que faz. Passo a passo.
Espero que isso não seja uma coisa ruim de se pensar.
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:54 AM




20 de outubro de 1985
Querido Diário,
Pouco mais de uma semana e tenho mais novidades. Desculpa por não ter
escrito, mas realmente parece que tudo enlouqueceu por aqui... bem, pelo
menos aqui dentro de mim. Em casa está tudo na mesma. Em geral muito
irritante. Meu Deus, sinto-me às vezes tão amarrada, como se tivesse que
manter esse sorriso constante no rosto ou todos iriam cair em cima de mim.
Será que a dor, não a do tipo que acontece quando seu gato é assassinado, ou quando a sua tia morre, mas daquele tipo que você tem que conviver... será que ela pode ser boa? A dor como uma sombra ou companhia. Será que é possível...
Seja como for, a novidade é estranha. Estou um pouco nervosa pelo tanto que gostei de correr todo aquele perigo, mas vou lhe contar tudo, e do
fundo do meu coração. Talvez seja como meus sonhos, menos difícil de entender se a gente puder ver no papel.
Vamos lá.
Na quinta-feira passada, anteontem, Donna e eu voltamos ao Book House, mais ou menos às quatro horas da tarde. Acho que fomos esperando encontrar Josh, Tim e o outro amigo deles, e talvez enlouquecer com outro cigarro daqueles. Nós nos vestimos especialmente para isso, nada muito exagerado ou louco, porque conhecemos praticamente todas as pessoas da cidade e não queremos que nossos pais fiquem sabendo. Mas estávamos com saia bem curta e um pouco mais apertada do que as pessoas aprovariam, menos os rapazes, é claro, e usamos um pouco de maquiagem que a mãe de Donna, a sra. Hayward, deu a ela na Páscoa porque Donna insistia em usar as dela e a mãe queria que ela tivesse as suas próprias.
Bom, vamos lá! Chegamos ao Book House e não havia ninguém além de Big Jake Morrissey, que é quem cuida do lugar. Vou falar um pouco sobre esse lugar que é pra você saber onde eu estava. É um bar, em geral para rapazes -
permitem-se mulheres -, mas é mais como um "clube do Bolinha". Há livros
espalhados pelas mesas e em prateleiras, que cobrem três de suas paredes, até o fundo. Cheira a cigarro, sabão de barba e café. Há sempre café pronto. E dessa vez notei uma foto do homem perfeito para as minhas fantasias! Não disse nada, é claro, mas ele era perfeito. Ele era rude e forte, mas tinha olhos doces e pele macia.
A foto mostra ele de jeans e jaqueta de couro, segurando um livro e
sentado em uma moto, lendo. Estou apaixonada! Como não tinha mais ninguém
ali além de nós, Jake nos deu um café e disse que as pessoas começariam a
chegar logo, e seria bom que saíssemos logo, principalmente vestidas daquele jeito.
Ele falava meio sério, meio de brincadeira, quando nos perguntou: "Será que vocês estão a fim de programa?"
Donna ficou toda vermelha, e eu só disse a ele o que diria aos meus pais se eles ficassem sabendo. "Só estamos brincado e curtindo. É só uma
brincadeira e você não tem nada a ver com isso." Ele entendeu, melhor que isso, "engoliu", e depois de beber o café nós saímos.
Na saída, eu disse a Jake que há mais ou menos uma semana três rapazes canadenses super legais tinham ido lá e nos ajudado a consertar os pneus das bicicletas que tinham murchado, depois que passamos sobre cacos de garrafas de cerveja quebradas que sempre havia na frente da Casa da Estrada. Pedi a ele que, se os visse, dissesse que queríamos agradecê-los, oferecendo uma xícara de café ou qualquer outra coisa. Disse também que estaríamos lá atrás conversando, caso eles quisessem aparecer. Jake prometeu que daria o recado se os visse.
Adivinhe! Eles apareceram. Jake deu o recado, porque eles saíram rindo, sem nos dar tempo de inventar outra mentira. Donna foi rápida e esperta em dizer que "nós queríamos ter certeza de que vocês eram legais antes de dizer quem nós somos".
Todos eles disseram que estávamos muito bonitas; descobri que o nome do terceiro era Rick e todos tinham vinte e dois anos! Dissemos que a nossa
idade não importava e não nos impediria de nos divertirmos, desde que
chegássemos em casa antes das dez horas. Se tivéssemos que nos atrasar,
deveríamos telefonar. Josh disse que tinha alguma coisa para bebermos, e
se tivesse algum lugar que conhecêssemos para acender um pequeno fogo na
floresta, poderíamos ir e fazer uma festinha. A essas alturas eram mais ou
menos cinco e meia da tarde.
Dessa vez eles estavam em uma caminhonete ao invés de bicicletas, e então Donna e eu nos sentamos na carroceria e dissemos a eles para cruzar a
Lucky Highway 21 e seguir direto para a floresta atrás de Low Town. Donna
e eu achávamos que estaríamos seguras ali, e se alguma coisa acontecesse
eu poderia dizer que nos perdêramos, que tínhamos saído para dar uma volta
e perdido a noção de onde estávamos. Imaginei que estaria tudo bem, não
importa o que acontecesse. Os rapazes me pareciam bem legais, e assim
confiamos neles mais uma vez.
Chegamos a um lugar onde havia um rio e agulhas de pinheiros espalhadas pelo chão, e portanto uma fogueira não teria perigo. Tim e Rick acendiam o fogo enquanto Josh abria a garrafa de... acho que era gim. A única coisa alcoólica que Donna e eu já tínhamos tomado era uma taça de champanhe -
uma única, no aniversário do dr. Hayward no ano passado. Isso era novidade
para as duas. Donna estava excitada mas nervosa. Eu estava absolutamente
excitada, e fui a primeira a dar um gole naquilo depois de Josh. A garrafa
rodou... até acabar.
Donna e eu ficamos bêbadas quase imediatamente. Rick não parava de dizer: "Cara, elas estão chumbadas".
Mas eu e Donna tivemos que fazer xixi, então nos afastamos do fogo alguns metros e nos agachamos atrás de uma árvore. Só um pouquinho ali e já
começamos a ficar com medo. Realmente um pouquinho ali e já começamos a ficar com medo. Não sabíamos o que fazer, e as duas ficaram se lembrando das besteiras que tínhamos dito, ou dando bandeira de que éramos infantis ou qualquer coisa do tipo.
Quando me levantei, minha cabeça se iluminou. Pensei comigo mesma: "Agora é tarde demais, você já está completamente bêbada, o melhor a fazer é
curtir, e não esquecer de ficar ligada no relógio!" Donna concordou que o
melhor mesmo era deixar acontecer, e ficamos grudadas uma na outra, se
sentíssemos medo mais uma vez.
Tim ligou o rádio do carro, e eu perguntei se eles não iam me achar uma boba se eu dançasse um pouco, porque curtia aquele som. Todos os três
disseram que tudo bem, e Donna só ficou ali olhando para o fogo um tempo.
Tim foi se sentar bem ao lado dela e cochichou alguma coisa em seu ouvido.
Os olhos dela se arregalaram, ela deu uma risada esquisita, e depois relaxou. Acho que ele a fez sentir-se bem, ou bonita ou qualquer coisa. Tenho que me lembrar de perguntar a ela o que foi que ele disse.
Então eu estava dançando, e Josh e Rick não tiravam os olhos de mim... e eu comecei a me sentir muito à vontade, ou confiante, ou as duas coisas, e enlouqueci um pouquinho mais e entrei numa dança mais sexy. Uma que
praticava sozinha no meu quarto, na frente do espelho. Movia os quadris em
círculos e deixava os braços se moverem devagar, passando de vez em quando
as mãos pelos quadris como se me sentisse muito bem de estar tocando em
mim mesma.
Saco! Mamãe está chamando lá embaixo para lavar a louça. Volto depois. Há muito mais que isso!
Amor, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:55 AM




Diário, voltei. Desculpe ter interrompido.
Bom, eu estava dançando, e Donna via o que eu estava fazendo e me olhava como se eu estivesse louca. Ela olhou em volta um tempo e aposto que
queria ter parte daquela atenção, ou qualquer coisa assim, porque olhou para o relógio e disse: "Vamos brincar de tirar tudo!" Por aí dá pra imaginar quanto Donna estava bêbada. Todo mundo ficou quieta e só ficou ouvindo a música, e então eu disse: "Vamos nessa!" Então Donna e eu tiramos a roupa... todinha. Quase ficamos de calcinha, mas não quisemos que eles pensassem que éramos garotinhas bobinhas. Eles estavam sentados no rio, encostados em pedras, quando nós duas chegamos perto do fogo. O riozinho tem no máximo um metro na sua parte mais funda.
Então nós tiramos a roupa e ficamos ao lado do fogo um tempo. Quando
começamos a ir para a água, Josh disse: "Parem! Aí. Só por um minuto". Nós paramos. E quando estávamos lá paradas, ele disse a Tim e Rick: "Vocês já viram na vida coisa mais bonita que essas duas gatas?" Os dois fizeram uns barulhos de quem tinha gostado. Donna e eu ficamos meio incomodadas quando sacamos que eles olhavam para nós de um jeito... um jeito meio íntimo, entende? Tim disse: "Vejam como o fogo faz sombras no corpo delas".
Donna e eu olhamos uma para a outra, e olhamos outra vez para
eles. Não era fácil enxergá-los porque estávamos muito perto da luz e eles
estavam no escuro, dentro do rio. Rick disse: "Por favor, venham para a
água conosco". Nós fomos.
Foi bom demais. O jeito que eles ficaram quando chegamos pela água,
deslizando bem devagar, como se fosse um sonho. Eu nunca tinha sentido nada tão bom e tão íntimo nas minhas fantasias. Os três estavam... estavam... estavam... acho que posso dizer de pau duro, porque "pênis" me soa como se eu estivesse lendo um livrinho da Coleção de Sexo. Então eles estavam super duros.
E eu disse (principalmente porque sabia que Donna estava mais pirada do que eu com tudo aquilo): "Esta vai ser uma noite maravilhosa... nós todos
podemos voltar pra casa com aquela sensação incrível de querer que fosse
mais... Donna e eu não vamos fazer até o fim com vocês".
Quando isso saiu da minha boca, eu nem acreditava. Quem estava falando? O que eu, Laura Palmer, de treze anos de idade, estava fazendo ali na floresta com três rapazes nus, nove anos mais velhos que eu?
Eles toparam, mas Josh disse: "Podemos pelo menos pegar em vocês, dar um beijinho?" Donna olhou para mim do mesmo jeito que no ano passado, quando
Maddy contou sobre os beijos. Eu disse que, para mim, tudo bem, mas que, se Donna não estivesse a fim, ninguém ia forçá-la. Alguma coisa me diz agora, quando me lembro, que isso foi a coisa mais excitante que aqueles caras já tinham vivido. Não acho que eles teriam feito alguma coisa de mal, mesmo que tivéssemos pedido, porque eles estavam morrendo de medo.
Foi uma noite tão estranha e tão particular. Como se a floresta nos
fizesse agir como loucos, como as árvores, e o fato de que estava escurecendo nos fazia esquecer que todo o resto existia.
Ajoelhei dentro da água, na frente de Josh e molhei os cabelos. Então
olhei para ele e disse: "Você pode pegar, se quiser. Está tudo bem." Então, bem devagar, ele pôs a mão em meu seio, que deve ter um bom tamanho, acho, para a minha idade, e estremeceu, como se estivesse assombrado. Eu me senti no topo do mundo. Fazia aquele cara de vinte e dois anos enlouquecer! Ele começou a tocá-los, e pegava só nos bicos, e era difícil para mim não dizer que isso era bom, por isso ri.
Tim começou a tocar nos seios de Donna, e ela só o observava em silêncio. Rick não tinha ninguém para ficar, então eu disse: "Pegue em mim,
também...mas lembre-se que fizemos um trato... certo?" Ele concordou e se
arrastou pela água até mim e pôs a boca na ponta do meu seio. Tive que
fechar os olhos para que eles não me fizessem pirar completamente. Era tão
incrível! Eu só conseguia pensar no cara da foto do Book House, e mesmo
que pareça estranho, vou dizer. Eu tive o pensamento erótico de que ele mamava em mim. Como se ali dentro tivesse todo o carinho e alimento de que ele necessitava... esse cara mais velho, precisando de mim. Senti-me forte e quase como se estivesse fantasiando para eles. Josh pôs a boca no outro bico, e Tim e Donna se afastaram um pouco de nós na água e começaram a conversar. Depois Donna saiu com Tim, os dois se vestiram e sentaram perto do fogo... sempre conversando. Eu não liguei, ou não queria ligar. Eu não ia parar aquilo a não ser quando quisesse, e era bom demais para estragar.
Sussurrei para Josh e Rick que tinha vontade de que um deles me beijasse, bem devagar e bem macio... e que o outro poderia continuar fazendo o que fazia. Rick disse a Josh que podia me beijar, desde que ele também pudesse depois, mais tarde ou qualquer outra hora. Então Josh se inclinou sobre mim e chegou bem perto, e antes de me beijar ele disse, bem baixinho: "Bem macio, certo?" Eu disse que sim. E ele continuou: "Bem macio e bem gostoso..." Ele abriu a boca, e eu abri a minha, e nossas línguas começaram a se mover, como se estivéssemos querendo cada vez mais... mas não era depressa, era devagar... bem gostoso e bem devagar. E Rick chupava meu seio e fazia barulhos de quem tinha fome e estava comendo, ou como se tomasse um sorvete delicioso. Sei lá o que ele estava sentindo, mas posso garantir que eu me sentia dez vezes melhor do que ele.
Entrei num sonho, não sei por quanto tempo, enquanto aquilo acontecia, e era como se nada de mal jamais fosse acontecer comigo. Tudo desaparecera e de repente não me importei de nunca mais ver Donna, mamãe, papai, ou qualquer pessoa... nunca mais. Essa sensação deliciosa de ser querida, necessitada, e especial, como se eu fosse um tesouro... era só o que eu queria sentir, sempre.
Eu não tinha idade, e não existiam horários, trabalhos de escola, trabalhos domésticos, chateações, nada para nublar minha cabeça ou levar-me de volta para a pequena Laura. Eu não tinha idade, e era tudo o que aqueles rapazes queriam. Era algo saído do sonho deles!
Rick começou depois a me beijar, e era tão delicado e tão doce quanto
Josh, embora beijasse diferente. Ele mexia a língua e os lábios de outro jeito, parando às vezes e mordendo de leve meu lábio, como se me provocasse.
Desculpe falar tanto, Diário, mas tenho que falar com alguém, e Donna, mesmo estando lá, na verdade não estava como eu. Ela ainda não estava
pronta para aquilo ou para o que pudesse sentir. Não que haja qualquer coisa errada nisso, mas Donna ainda está mais interessada em ser boa... o tempo inteirinho. Eu, parece que tenho sido tão boa quanto posso, e talvez mais do que muita gente, mas tive que esquecer essas coisas por um bom tempo ali... e acho que foi uma ótima solução.
Nada além disso aconteceu no rio, a não ser que toquei os dois no meio das pernas. Fui bem delicada com eles da maneira como eles foram comigo, e adorei senti-los tão duros, e saber que aquela coisa dura flutuava na
água... isso eu só podia sentir e não ver. Exatamente como eu queria que
fosse. Era capaz de querer mais, e capaz de adorar o que eu tivesse.
Tim e Donna trocaram números de telefone enquanto eu me vestia, e a única coisa que me preocupava é que eu estava mesmo bêbada e começava a sentir o estômago enjoado. Acho que Donna também, porque Tim disse: "Acho melhor a gente ajudá-las a vomitar, senão vai acontecer quando chegarem em casa...
Donna está preocupada, sabe, em como vai explicar para os pais dela".
Eu nem acreditava como aqueles caras estavam sendo legais conosco. Eles não fizeram piadas e nem nos fizeram sentir que éramos nada perto deles. Sei que não somos, mas foi bom, especialmente no estado que estávamos, não ouvir nada desse tipo.
Rick disse que tinha chicletes no porta-luvas do carro, e se nós quiséssemos ele iria buscar. Tentei me imaginar indo para casa do jeito que eu estava, completamente zonza. Vomitar não parecia uma coisa agradável, mas Tim sugeriu que talvez nos deixasse sóbrias, então Donna e eu viramos de lado e enfiamos o dedo na garganta. Veio logo. Foi horrível, mas me senti melhor, e Donna disse que estava mais fácil para ela depois disso. Eu disse que poderíamos voltar, e que se eles não se importassem, poderiam nos deixar a um quarteirão de casa, mas de que casa?
Achei que a viagem de volta, o ar fresco, fosse nos ajudar.
Aguenta um pouquinho, Diário, mamãe quer dar um beijo de boa-noite.

Posted by LAURA PALMER 2:56 AM




Tudo bem, estou de volta. Graças a Deus que ela não viu você.
Quando os rapazes nos deixaram, nós saltamos da carroceria, e Tim beijou a mão de Donna todo romântico, e Rick e Josh disseram que tinham gostado muito de tê-la conhecido.
Eu fui para a janela do motorista, onde estava Josh, e já ia agradecer-lhe... e dizer o que me viesse à cabeça... mas ele me fez parar. (Um arrepio correu pela minha espinha.) Ele encostou o dedo nos meus lábios e disse: "Obrigado por confiar em nós como confiou". Eles foram embora, e Donna e eu quase choramos.
Estávamos a um quarteirão da casa de Donna e cada uma de nós pôs mais um chiclete na boca e começamos a pensar numa história. Estávamos na floresta, conversando. Inventávamos histórias e contávamos os sonhos que
tivemos, e... o futuro.
Donna disse que não achava que estava mentindo porque foi o que ela e Tim fizeram. Eles se beijaram algumas vezes, e Donna admitiu, pouco antes de
entrarmos na casa dela, que gostou muito.
Resolvi que não explicaríamos nada do que fizemos enquanto estivemos fora, a menos que alguém perguntasse. Já vi pessoas exagerarem na explicação das coisas, e parecer que estão mentindo ou escondendo algo; podia acontecer
conosco.
Os pais dela estavam dormindo no sofá quando entramos, e nós passamos bem de mansinho e fomos para o quarto. Escovamos os dentes e ajeitamos um
pouco o cabelo, e antes de descer nos abraçamos. Não dissemos uma palavra.
Só nos abraçamos. Acho que foi nossa maneira de dizer que era nosso
segredo, e que ainda éramos amigas e que tudo estava bem. Estávamos em casa, e estava tudo bem.
Donna acordou o pai dela e disse que esperara para acordá-lo porque ele estava dormindo tão gostoso, ali deitado no ombro da sra. Hayward. Ele se
ofereceu para me levar em casa, então liguei para mamãe e ela disse que nem tinha prestado atenção na hora porque estava lendo um livro ótimo. Disse que papai já tinha ido dormir. E que ela ia esperar eu chegar.
Não sinto nenhuma culpa pelo que aconteceu, mas acho que é só porque
ninguém ficou preocupado e porque os rapazes eram tão legais. Não posso evitar de ficar triste ao pensar que tudo terminou. Esta noite se foi, e sou Laura outra vez. Treze anos de idade, e a menina dos olhos de papai.
Sem raiva, mas com certa ansiedade, gostaria muito de ser mais velha, e dona do meu próprio nariz, sem ter ninguém para prestar contas.
Deus abençoe mamãe e papai, Troy e Júpiter - que sua alma descanse -, e os rapazes, Josh, Tim e Rick. Obrigada, Deus, por ter me dado aquelas horas
de... BENÇÃO.
Já, já, L
P.S.: Sinto que cada vez que me lembro desta noite eu mudo um pouco. Os rapazes são um pouco mais rudes comigo a cada vez. Vou ficando mais
atrevida, e os faço dizer o que sentem quando me tocam. Quero que eles me
digam como é para eles. Não sei por que isso mudou... Gostei da maneira como foi, mas quando repito em minha cabeça, quero que eles sejam um pouco mais obscenos. Gosto disso. Gosto que eles sintam mais do que eu.

Posted by LAURA PALMER 2:57 AM




11 de novembro de 1985
Querido Diário,
Ontem, pela primeira vez há muito tempo, dormi a noite toda. Quando
acordei, nem podia me lembrar dos sonhos que tive, ou se tive algum. Dizem
que todo mundo sonha o tempo todo, e sempre me lembro dos sonhos. Bem, eu
estava escovando Troy no estábulo quando de repente veio à minha cabeça um
endereço: River Road, 1400, River Road, 1400. Eu tinha sonhado com isso.
De repente senti vontade de ir lá. Tinha que encontrar esse lugar e ver o
que era. Decidi telefonar dos estábulos para a mamãe e dizer que ia dar
uma volta com Troy, e voltaria logo.
Eu tinha alguma idéia de onde era River Road, 1400, e confirmei com Zippy para ter certeza. Ele disse que não era longe,mas não havia muita coisa
lá. Eu disse que queria sair um pouco com Troy e ir aonde eu nunca tivesse
ido antes. Não quis dizer que tinha sonhado com esse endereço e precisava
descobrir se ele existia. Temi que ele achasse estranho e, por outro lado,
nem eu mesma sabia muito bem por que tinha que ir. Achei que por tudo o que já acontecera, era melhor ficar quieta. Manter segredo, como de tantas outras coisas. Zippy disse para não esquecer de entrar à esquerda quando a estrada de terra bifurcasse, porque senão eu iria parar numa estrada asfaltada, e isso não seria bom para os casos e as ferraduras de Troy.
Prometi, e lá fomos nós.
Todo tipo de pensamento passou pela minha cabeça, e até chorei um pouco
porque comecei a pensar em Josh, Tim e Rick, e talvez nunca mais os visse.
Pensei que Donna não tinha me telefonado ainda hoje, e me preocupava que ela pensasse que eu fosse suja, ou má, ou qualquer outra coisa, e senti uma profunda necessidade de conversar com ela. Espero que ela não pare de gostar de mim.
Não sei o que faria se isso acontecesse. Então, continuava vendo aquele endereço na minha cabeça, a cada vez que terminava de pensar uma coisa, não importava o que fosse, e de repente me vi em frente àquele posto de gasolina abandonado. Desmontei de Troy e amarrei-o a um poste que ainda
estava lá. O poste que segura a cerca em volta da bomba. Aquele que assinala qual bomba é o quê. O mato crescia em toda a volta; deixei Troy pastando por ali e comecei a olhar o lugar.
Quando dei a volta em Troy, para ficar exatamente de frente para o posto, vi a Senhora do Cepo ali parada, muito quieta, segurando o cepo, bem
embaixo do pedaço de madeira onde estava escrito River Road, 1400. Ela riu
para mim, e lembrei que tinha visto aquele rosto no sonho. Não dissemos nada por um bom tempo. Só olhávamos uma para a outra e sorríamos. Eu não estava incomodada, mas bastante curiosa para saber por que estava lá, e no instante em que pensei isso, ela falou:
- Sei que você está curiosa para saber que lugar é este e quem sou eu.
Eu concordei.
- Vi num sonho que iria encontrar você aqui, para que nos conhecêssemos melhor - disse ela.
Senti um baque no estômago e fiquei de boca aberta.
- Às vezes sonho com pessoas - disse calmamente. - Acontece.
Jamais pude imaginar que Margaret, a Senhora do Cepo, fosse tão gentil. Nós nos sentamos na grama, na frente do posto, e ela começou a me dizer que sabia muita coisa sobre mim, coisas muito especiais. Disse que eu não devia me preocupar tanto. Se eu prestasse atenção às coisas à minha volta, essas mais especiais viriam até mim.
Sempre ela pegava o cepo e ficava em silêncio como se o estivesse ouvindo. Muitas vezes ela ria como se fosse muito engraçado, ou agradável. Outras, ela dizia para o cepo que não queria ouvir aquilo. Que não era a hora. A última vez que aconteceu, ela virou-se para mim e cochichou: "As coisas não são bem o que parecem".
Ela olhou para a frente, depois se virou com outra expressão no olhar, como se estivesse aliviada por ainda estarmos sós. Ela disse que sabia que eu andava sonhando em ser uma moça, e que isso era bom porque todas as
garotas também sonhavam. Então as palavras começaram a ficar meio confusas... ela disse muita coisa sobre a floresta, e procurei ouvir com muita atenção porque confiava nela e achava que talvez ela soubesse alguma coisa que poderia me ajudar. Um monte de coisas que ela dizia me parecia besteira. Lembro-me do que foi, vou escrever, mas não sei o que significa. Talvez entenda mais tarde. O que consegui entender me fez muito bem, como se eu não estivesse sendo má o tempo todo, e pudesse continuar esperando
pelas coisas sem ter medo de estar sendo egoísta.
Algumas coisas que ela me disse: que a floresta é um lugar para se
aprender sobre as coisas, e sobre si mesmo. Outras vezes é um lugar para
outras criaturas, não para nós. Disse que às vezes as pessoas vão acampar
e aprendem coisas que não devem. Às vezes as crianças são as vítimas...
Acho que foi isso o que ela disse. O que mais...? Estou me esforçando para me lembrar de tudo. Ah! Ela disse que tinha de ficar de olho, e que um dia as pessoas iam descobrir que ela vê as coisas e que se lembra delas. Disse que é importante lembrar o que você vê e sente. As corujas às vezes
são grandes. Isso! Isso é uma coisa que eu tinha esquecido completamente.
As corujas às vezes são grandes. Espero que isso não se refira àquele
"sonho de coruja" que mamãe disse que eu tive. Acho que não, mas só por isso a frase faz sentido para mim. Espero poder entender logo essas coisas. Tanto faz; nós continuamos ali sentadas, e ouvi ela cantarolar uma música que nunca ouvira antes, e que achei muito bonita. Fazia-me sentir segura, e acho que ela estava querendo isso mesmo. Sinto pena dela, que as pessoas a acham estranha e perigosa. Ela não é nada disso. Eu podia ver nos olhos dela que alguma coisa a machucara, mas nem quis começar a entender o que era até mamãe me contar quando cheguei em casa.
Ela disse que Margaret (a Senhora do Cepo) tinha um marido que era
bombeiro. Ele morreu apagando um incêndio, e mamãe disse que foi horrível
porque ele tropeçou numa raiz, ou qualquer coisa, e caiu de cabeça em um
braseiro e queimou até morrer, a começar pelo rosto. Eles tinham se casado
havia pouco quando isso aconteceu, e desde então Margaret não falou mais com ninguém e guardou a dor para si mesma. Mamãe disse também que ela não usava aquele cepo antes de o marido morrer.
Eu não sabia nada disso até encontrá-la ali na River Road, 1400, mas isso não tem importância, acho. Eu disse a ela que a achava uma pessoa muito
boa e especial, e que estava contente por ter prestado atenção ao meu sonho, porque não gostaria de ter perdido a chance de poder conversar com ela. Disse também que esperava que ela estivesse certa a respeito de minha vida ter coisas especiais, que eu iria atrás delas porque queria que minha vida fosse boa. Depois eu disse uma coisa que espero que ela nunca repita. Eu não esperava dizer aquilo, e para falar a verdade não sei de onde veio. Disse que às vezes aconteciam coisas das quais ninguém sabia. Elas aconteciam na
floresta, quando já estava bem escuro. Disse a ela que às vezes eu não tinha certeza se essas coisas eram reais, e outras achava que eram mais reais que o sol nascendo a cada dia, e que pensar nisso me dava muito medo. Lembro-me que ela afastou os olhos de mim, quando terminei. Achei ter dito algo que a aborrecera. Ela segurou o cepo com firmeza, olhou de volta para mim e disse que eu era muito bonita e que muita gente iria me amar na vida.
Espero que sim. Um dia alguém me amará como os rapazes me amaram, até
mais. Gostaria de saber onde está essa pessoa agora, se está se perguntando onde eu estou e como sou, e quando finalmente nos encontraremos. Será que Margaret já pensou em sexo da mesma maneira que eu?
A caminho de casa tentei me lembrar da canção que ela cantarolou, mas não consegui. Estava me sentindo muito bem depois que saí da River Road 1400,
e continuei me sentindo assim durante todo o caminho de volta, até chegar
em casa no carro de mamãe. Continua forte até agora. Espero que Margaret
não esteja se sentindo sozinha. Espero que esteja tão feliz quando eu. Só
gostaria de ter dito a ela que sua vida poderia ser muito feliz.
Até mais, Laura
P.S.: Donna ainda não me ligou.

Posted by LAURA PALMER 3:12 AM




13 de novembro de 1985

OUVINDO A FLORESTA
Acho que as árvores têm alma
Alma que cresce e que muda
No silêncio de cada folha
A memória de momentos que ninguém vê
E nenhum homem jamais ouviu
Pede um tempo para se pensar
Que as árvores tudo vêm
E no jeito como sussurram
Indicam que querem falar.
Talvez tentem cochilar
Na palma da mão de alguém
que se lembram da garotinha
E que dentro dela há um vazio
E uma boca nova e bem menor
Mas ninguém as ouve ou se importa
Que talvez
As árvores saibam
Que há algo de muito errado
Que elas querem falar da tristeza
Vista durante tantas noites
Acho que o mundo inteiro
Deveria andar pelas florestas
Ouvindo atentamente,
As vozes das folhas.
Ver os detalhes, os minúsculos mapas
Das pegadas, e às vezes as nódoas
Devia ver que as folhas
Têm forma de lágrimas
Devia olhar o desenho das agulhas caídas
Talvez existam marcas no chão
Que conduzam o mundo
Àquele que tudo fez.

É tarde, e ele veio esta noite. Não sei se a Senhora do Cepo falava da Laura Palmer certa.

Posted by LAURA PALMER 3:14 AM




20 de novembro de 1985
Querido Diário,
Acabei de ter um sonho que me fez acreditar que não vou dormir esta noite. Eu estava no quarto. Estava completamente vazio, e eu me sentia mal por isso. Era como se a culpa fosse minha por não ter nada nele. Eu estava
encolhida a um canto do quarto, olhando para aquele ponto na outra extremidade, porque sabia que alguma coisa iria aparecer, logo, logo.
Pouco depois comecei a sentir muito frio. Achei que tinha visto alguma coisa, mas desapareceu. Então olhei adianta porque estava tentando
encontrar a porta que dava para o outro quarto, porque queria ver se havia
móveis lá. Eu me sentia muito mal por alguma coisa e queria entender, para
que eu pudesse parar de me sentir tão... culpada. Acho que era isso o que
eu sentia: culpa.
Virei-me para olhar o quarto e lá estava um rato enorme. Eu sabia, no
sonho, que ele estava atrás de mim, e queria comer meu pé. Quase morri de
medo! Vi que ele chegava cada vez mais perto, e tentei pensar numa maneira de pará-lo, ou correr para algum lugar, mas não havia para onde ir ou o que eu pudesse fazer!
Sei que pode parecer engraçado, mas era assustador. Sentei-me
absolutamente quieta e tentei manter o pé bem junto ao corpo de modo que o
rato não pudesse pegá-lo. Não podia deixar de pensar em como seria terrível sentir ele cravando os dentes em meu tornozelo e cortando-o fora. Eu não queria sentir isso, e não queria que o rato se aproximasse. Não chegue perto de mim! Fiquei pensando na dor que sentiria... E então, no sonho, porque sabia que ele só queria o meu pé, eu mesma o comi. Quando acordei, mal podia respirar de tão assustada! Ainda posso ver o rato, e acho que ele estava atrás de mim porque havia algo errado com o quarto, ou eu estava sendo castigada por alguma coisa. Mas eu estava mais assustada com os dentes do rato e quando ele iria me ferir... Por isso decidi fazê-lo. Eu mesma me feri, antes que ele o fizesse. Embora eu não soubesse porque o rato queria me ferir, sabia que eu mesma teria que fazê-lo, ou ele o faria.
Não gostei nada desse sonho. Por favor, Diário, sei que parece bobagem, mas não me julgue como outras pessoas que ouvissem esse sonho.Espero nunca mais sonhar com isso. Nem quero saber o que ele significa, ou se quero
continuar me lembrando dele. Decidirei isso amanhã, quando a escuridão se for e as coisas forem mais fáceis de serem vistas quando estiverem atrás de mim.
O que me deixa louca é saber que não posso contar nada a mamãe. Tenho medo
de que as pessoas riam de mim. Vou tentar ser mais como Donna. Serei boa, e farei tudo o que esperam de mim. Assim, não haverá nada que alguém possa
descobrir e que seja motivo de riso. Não haverá nada que possam dizer que fiz de errado.
Aposto que o que fiz com Donna e os rapazes está causando tudo isso. Mal posso pensar direito e decidir se valeu a pena. Alguma coisa está causando noites como esta. Vou tentar melhorar. Pararei de fazer coisas que só garotas mais velhas podem fazer. Não deixarei que ninguém me machuque, como no sonho. Eu vou me machucar primeiro. Sei quais são os lugares mais sensíveis. De agora em diante eu causarei os ferimentos, até que tudo isto pare!!!!
Gostaria de poder contar a mamãe.
Laura

Posted by LAURA PALMER 3:18 AM




16 de dezembro de 1985
Querido Diário,
Não sei se vou continuar escrevendo em você. Acabei de ter outro sonho.
Devo ter adormecido enquanto esperava pelo sol.
Não sei por quê, mas fiquei vendo você aparecer e sumir no colo das
pessoas. Sentadas à mesa para comer ou nos bares. Encostadas no capô de seus carros antes de saírem para um passeio. Tentava tirá-lo delas, mas você escorregava de minhas mãos. Você ia dizer a todo mundo o que estava escrito em seu interior.
Algumas pessoas liam e se transformavam em ratos. Queriam arrastar-me com elas como BOB faz. Acho que até eu poder entender melhor, não devemos mais nos falar. Não sei por que tive esse sonho... mas tenho muito medo de
correr o risco. Se escrever não faz os pesadelos, o fogo, as cordas e as laminazinhas prateadas desaparecerem... Talvez eu deva entrar nessas coisas. Talvez seja o que se espera de mim. Talvez eu tenha que ser paciente e parar de lutar contra, para que elas então desapareçam.
Detesto ter que dizer adeus a um bom ouvinte como você. Sinto que devo, entretanto, até descobrir se de alguma maneira você está contando a alguém sem eu saber.
Estarei ficando louca? Mal posso esperar que as férias terminem e a escola recomece, para que eu tenha algo com que me ocupar. Vejo as outras garotas que conheço, ou que apenas cruzo nas ruas, e todas elas riem como eu. Por dentro estarão começando a perder tudo o que conhecem ? Terão deixado de
confiar nelas mesmas e em todos os que as rodeiam ? Por favor, não permita
que eu descubra ser a única na Terra com esta dor.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:44 PM

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