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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1986
(De Abril a Dezembro)


23 de abril de 1986
Querido Diário,
Passou-se um longo tempo desde que escrevi pela última vez. A escola está ótima mais fácil demais. Não exige muito de minha cabeça para que ela se
mantenha longe dos rapazes ou das fantasias. Donna e eu tivemos várias
discussões este ano porque ela diz que estou agindo de modo estranho, e que não estou sendo a amiga que fui. Se eu odeio chorar, por que foi tão fácil depois? Só estou tentando ser boa e me manter ocupada, e não ficar falando e delirando demais porque acho que isso chateia as pessoas e coisas ruins podem acontecer comigo.
Agora Donna está furiosa porque não quero dizer a ela o que estou sentindo realmente; é que estou com medo! Não posso dizer que tenho medo porque ela iria querer saber o motivo. Jamais poderei dizer. Nem mesmo tenho me tocado onde sei que devo para me sentir bem. Tenho medo, porque aquilo
está ligado com sexo, e resolvi não pensar nisso nunca mais... Mas como é
difícil!!!
Eu me odeio. E odeio a vida! Papai tem trabalhado até tarde com Benjamin, lá em Great Northern, e estou começando a me sentir como Audrey, quando o pai dela dedica mais tempo e atenção a mim do que a ela. Agora está
acontecendo o contrário; só estou tentando ser boa e fazer com que isso pare, mas só o que consigo é ter mais dificuldade para dormir e até para comer! Não quero mais me sentir assim. Se continuar, sei que algo terrível vai acontecer.
Ontem à noite sonhei que tinha cavado um buraco no quintal para um poço, porque estava tentando conseguir água para nós, e achei que seria bom
construir um poço para a família. Mamãe adorou a idéia e deu um sorriso lindo. Mas quando ela saiu no quintal, no meio do sonho, eu estava enterrando a mim mesma no buraco, tentando me matar. Ela percebeu que eu tinha mentido, e isso a deixou muito mal. Ela correu para me impedir de continuar, e eu gritei que não queria mais acordar no meio da noite, toda coberta de folhas. Queria ser uma árvore para ouvir as broncas lá da floresta. Ao mesmo tempo ia me enterrando. Mas eu estava dentro de alguma coisa que não era um buraco.
Mamãe veio ao meu quarto logo depois para saber se estava tudo bem, e eu disse que estava ótima. Só estava tendo pesadelos com a floresta. A
expressão do rosto dela passou da tristeza à compreensão. Então, infelizmente ela começou a dizer uma coisa que eu não queria ouvir de jeito nenhum! Começou a falar sobre os pássaros e as abelhas, sobre bebês e controle de natalidade, e todas essas coisas ridículas sobre como meus sonhos eram só uma parte das mudanças que aconteciam em meu corpo, e que talvez eu só necessitasse de algumas respostas.
Ela não parava de falar, e eu ficava pensando em outras coisas.
Pensava em flores e em rostos sorridentes, ou em qualquer outra coisa...
caminhões enormes carregados de cacarecos, em pássaros, em Donna, Donna,
Donna... só coisas boas. Não ouvir, não poder ouvir aquela voz dizendo todas as coisas que seriam chavezinhas para as portas de quartos nos quais eu não devia entrar! Como isso pôde acontecer? Ela falou quase durante uma hora, e eu tinha que segurar minha mão... A vontade era bater nela, destruir aquele rosto sorridente e solícito, e gritar: "Como você faz isso? O que está acontecendo com essa parte de mim?"
Quer saber qual parte que mais me assusta? A única coisa que as pessoas acham de mim agora é que estou atravessando a adolescência! Todo mundo ainda vê a risonha Laura Palmer. A garota com ótimas notas, um cabelo
lindo e mãozinhas perfeitas, que querem, às vezes, no meio da noite, entrar dentro do espelho e estrangular a garota sonhadora e problemática que vejo refletida!
Hoje irei ver Donna e falar com ela. Falarei o melhor que puder. Não tenho trabalho de escola para fazer, e já terminei os dois projetos extras para nota. Já fiz o quadro de honra e preparei o debate da equipe de calouros.
Não paro de rezar e nunca me senti tão mal na vida. Estou começando a
pensar que alguns momentos bons, no meio de milhares de maus, são melhores
que nenhum. Espero que Donna ainda queira ser minha amiga.
Se puder, vou lhe contar o que acontece com Donna.
Tchau, Laura

Posted by LAURA PALMER 12:45 PM




24 de abril de 1986

Alguma coisa está pintando...
A memória de uma brincadeira
Eu era pequena, olhava para ele
E ele me manda deitar
Ou dizer coisas
Antes de falar
Que abrir a boca era ruim
Que tínhamos um segredo
Antes de ele começar a me virar do avesso
Com suas garras nojentas
Antes de eu me sentar no morrinho
Nós costumávamos brincar
De mãos dadas
Falar do que víamos
Ele me dizia o que via
Mas eu não podia ver
Estive cega
Acho
Desde que a brincadeira parou.

Quero ficar sozinha como outras pessoas ficam. Quero aprender sobre esta gostosa roupa branca que uso, como todos fazem.
Quero esquecer coisas que de repente me lembro... Algo muito ruim está
acontecendo... Por que comigo?
Acho que é real. Acho que é real!
Depois de me encontrar com Donna, talvez eu possa lhe dizer o que estive lembrando. Já esqueci muito... mas não sei dizer se é melhor ignorar ou não lembrar mesmo nada.
Por favor, Donna, continue sendo minha amiga!

Posted by LAURA PALMER 12:46 PM




21 de junho de 1986
Querido Diário,
Ontem passei o dia com Donna. Durante muito tempo ela não disse realmente nada. Quando comecei a chorar, saí correndo da casa dela e não podia parar. Fiquei muito feliz quando ela veio atrás de mim, também chorando. Eu disse a ela o máximo que pude. Que eu estava preocupada em ser boa porque andava tendo sonhos maus, muito maus mesmo, e não estava brincando
quando disse a ela que não estava dormindo nada. Disse também que gostaria
de conversar sobre a noite no rio com os rapazes que eu tinha tido um sonho horrível e pensado que o que acontecera fora ruim. Disse que precisava ouvir o que ela pensava sobre aquela noite. Tinha que saber se ela achava que devíamos ser punidas por aquilo, ou se eu deveria, porque fizera mais que ela... eu tinha que saber!
Donna disse que tinha medo de que eu não estivesse conversando com ela porque estava furiosa por ela não ter ido tão longe quanto eu com os
rapazes, e que não gostava mais dela por causa disso! Perguntei como ela podia pensar isso quando nos demos aquele abraço tão bom quando a noite terminou, e que ainda me lembrava desse abraço como uma das partes mais claras e mais bonitas da noite toda! Disse que só estava muito confusa, e disse também que metade do tempo eu não sabia se devia ter gostado daquilo tanto quanto gostei, ou se devia estar me sentindo mal.
Donna disse que a única razão de ela ter saído da água foi que não tinha certeza se achava certo fazer aquilo, mesmo que os rapazes fossem tão
legais. Depois ela chorou e olhou para mim, de um modo muito estranho, e
disse uma coisa que achei realmente esquisita. Disse que outro motivo de ela não ter entrado mais foi por medo, porque eu parecia tão à vontade em tudo aquilo, e ela não sabia o que devia fazer, ou como fazer. Quis saber se aconteceu comigo naturalmente, ou se eu estivera com outro cara e não tinha contado para ela.
Não consegui responder. Não sei se sabia a resposta. O que ela quis dizer com isso? Eu disse, depois de um bom tempo, que me lembrava de estar me
sentindo sexy, e muito feliz por eles gostarem de mim e me quererem, mas que metade de tudo, talvez mais, eram coisas que os rapazes faziam e não eu.
Além do mais estávamos bêbados, e era tão bom fazer coisas que eu
imaginara durante tanto tempo... Ela me interrompeu aí e disse que também
pensava nos rapazes do mesmo jeito. Eu perguntei como era, como o que faziam quando ela sonhava com eles, e ela disse que eles a tiravam para dançar, ou olhavam para ela na escola, ou a deixavam andar em seus carros. Disse que imaginava sair com caras mais velhos que a tratavam como uma princesa, e que à noite eles entrariam numa cama bonita e bem grande ao lado dela, e eles conversariam e se beijariam, e de vez em quando fariam amor.
Ela disse que não gostava de ir tão longe porque parecia estragar o resto da fantasia. Sim, pensava em sexo, ela disse. Mas um tipo de sexo que vai muito devagar, como nas novelas água-com-açúcar. Ela disse que vê a coisa
em câmera lenta, ouve a música tocando ao fundo, e eles rolando pelo chão,
ela e o cara, muito lentamente, até que tudo desaparece de sua cabeça. Ela
disse que esperava que as minhas fantasias fossem tão sexy quanto as dela.

Ah, Diário, foi tudo muito bem até conversarmos sobre isso! Eu tive que dizer que minhas fantasias eram idênticas às dela, e que nós não devíamos
ter discutido, e eu sentia muito por tê-la magoado. Que eu devia ter me aberto mais com ela, e que só estava preocupada por ela estar me odiando por ter ido tão longe naquela noite. Ela disse que me achou muito corajosa, e que se me fez bem, então eu devia pensar que fora uma coisa boa. Mas, e quanto às fantasias dela? Eu quase morri quando soube que eram tão puras, tão delicadas e tão gentis. Por que ela não pensa as mesmas coisas que eu? Eu esperava tanto que fosse assim... eu dependia disso.
Sei que ela falava a verdade pela maneira como ela dizia, e como ficou sem graça quando falou sobre aquele cara que ia para a cama com ela. Mal posso acreditar em como ela é pura! Acho que as vezes que fui para a floresta no meio da noite me envenenaram.
Aposto que seria como Donna, se eu ainda ficasse brincando entre as
árvores, em vez de... o que acontece agora. Mas... eu jamais desejei isso
que está acontecendo! Desejava coisas que me fizessem sentir sexy e
brincalhona, coisas que não me obrigassem a fazer todo o trabalho, coisas como o outro tentando me dar prazer, em vez de eu estar sempre me esforçando para tornar todos felizes.
Gostaria que houvesse um lugar onde se pudesse ir e alguém desse as
respostas para as perguntas, e dissesse se o que se está fazendo é certo ou errado. Como se espera que eu saiba, quando não posso sequer falar
realmente sobre as coisas? Fico falando as mesmas um milhão de vezes. Estou girando em círculos, e é hora de parar.
Donna e eu ainda somos amigas, ainda gosto muito dela, mas as coisas agora são diferentes para mim. Não posso pensar como ela, não poso nem tentar
mais. Pensarei no que sinto e tentarei fazer com que as pessoas vejam as
coisas como eu. Gostaria de um cigarro de maconha agora. Ela me faz sentir
como se eu não risse há muito, muito tempo.
Obrigada por me ouvir.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:47 PM




22 de junho de 1986
Querido Diário,
Só vou escrever e não pensar muito, talvez assim eu consiga me lembrar mais. Acabei de acordar; são 4h12 da manhã.
Não me lembro como começou, mas ele sempre tem cabelo comprido. Sabe tudo sobre mim e sabe como me amedrontar mais que qualquer dos outros sonhos
que já lhe contei.
Primeiro ele começa brincando comigo. Nós nos escondemos por entre as
árvores e vamos procurar um ao outro, mas ele sempre me encontra... e eu nunca consigo encontrá-lo. Ele dá um pulo atrás de mim, agarra meus ombros
e pergunta como me chamo. Eu digo que é Laura Palmer, e ele me solta, fica
rodando em volta de mim e dando risada.
Pensando agora, ele nunca brinca da maneira como deveria. É sempre malvado e me põe medo o tempo todo. Acho que ele gosta quando estou com medo. Eu me sinto assim toda vez que ele vem me buscar. Gosta de me envergonhar
puxando a minha calcinha e enfiando o dedo dentro de mim, bem fundo. Quando percebe que está me machucando, ele puxa para fora e cheira a mão. Sempre diz que meu cheiro é ruim. Grita alto para as árvores que eu fedo, que sou suja, e que ele não sabe por que gosta de mim. Diz que se eu não implorasse todas as vezes, ele jamais voltaria.
Eu nunca imploro para ele voltar. Nunca. Gostaria que sumisse daqui. Eu juro.
Quando comecei a ficar mais velha, ele me dizia coisas sobre mim que eu não sabia. Não acho que dissesse a verdade. Acho que estava mentindo e
inventando enquanto falava. Ele sempre soube o que me assustava, e exatamente as coisas que devia dizer para me fazer chorar. Depois agarrava meu pescoço... e apertava. Apertava meu pescoço com força até eu parar de chorar. Só soltava quando eu estava desmaiando... acho que desmaiava... às vezes ainda acontece. Tudo começava a escurecer e o corpo a formigar, e minha cabeça girava e eu não podia ver nada, e tinha que parar de chorar ou ele continuava apertando.
Às vezes ele diz: "O que tem aqui embaixo?... O que tem aqui, Laura
Palmer?" Ele sempre diz meu nome inteiro, como se assim se mantivesse longe de mim, mas chegando de todos os outros jeitos. Às vezes eu chegava em casa sangrando. Sangrava e não podia dizer nada a ninguém, e ficava a noite inteira sentada no banheiro, completamente sozinha, esperando que parasse o sangramento. Às vezes ele me cortava entre as pernas, outras dentro da minha boca. Sempre pequenos cortinhos, centenas deles. No banheiro, eu tinha que usar uma lanterna, ou meus pais poderiam acordar e o problema seria muito maior.
Algumas noites ele faz com que eu me lambuze de porra. Ele bate uma
punheta bem depressa, me manda pegar a porra na mão, fechar os olhos, e
recitar este poeminha enquanto lambo a mão até ficar limpa. Só me lembro um pedaço. Há muito tempo que isso não acontece. Ele me obriga a dizer:

A putinha está
Terrivelmente triste
A putinha
Engole tudo de uma vez
(Não consigo lembrar mais, só a última linha.)
Nesta semente está realmente a morte.

Ele quer que eu goste disso, quando está comigo. Quer que eu diga que sou suja e que tenho um odor. Que eu devia ser jogada no rio para me limpar.
O tempo todo eu me cuido para manter-me limpa. Sempre me lavo entre as pernas, sempre durmo de calcinha limpa, para o caso de ele aparecer. Fico
preocupada com que ele chegue e eu não esteja de calcinha limpa. Diz que
tenho sorte por ele sempre vir e perder tempo comigo. Diz que é o único homem que vai querer me tocar.
Ele aparece na janela e eu o vejo. Vejo-o sempre, e ele está sorrindo como se fôssemos curtir muito juntos. Chego bem perto de pedir socorro aos meus pais, mas tenho medo do que possa acontecer. Não posso deixar que ninguém saiba dele. Se eu continuar a vê-lo, talvez ele se canse de mim e nunca mais volte. Talvez se eu parar de lutar, ele não venha mais me procurar.
Se eu não tiver medo. Se eu puder não sentir medo...
Jamais pensei nele dessa maneira antes.
Se Deus existe, espero que ele entenda que estou tentando manter-me limpa; isso é um teste pelo qual estou passando, e eu vou conseguir passar.
Aposto que Deus quer que eu prove que sei obedecer, ou talvez que não tenho medo da morte e poder estar com ele. Talvez BOB conheça Deus, e é por isso que sempre sabe o que estou sentindo. Deus deve estar lhe dizendo o que fazer comigo. Deus quer que eu não tenha medo de ser suja. Se eu não tiver medo, ele me levará para o céu.
Espero que sim.
L
Posted by LAURA PALMER 12:48 PM




25 de julho de 1986
Querido Diário,
Tenho me esforçado muito para não sentir medo.
Tenho saído com um cara de quem já lhe falei antes. Eu não gostava dele, mas acho que agora é perfeito para mim. Ele me lembra muito aquele cara do retrato na parede do Book House. Veste-se do mesmo jeito, mas não tem moto. Fiz catorze anos. Não deixei que ninguém celebrasse o meu aniversário. Fiz mamãe prometer que não planejaria nada. Disse a ela, um dia antes, na mesa do cozinha, que tinha muito que pensar sobre o que fazer da minha vida. Queria passar o aniversário sozinha. Queria caminhar sozinha, talvez saísse com Troy para um passeio: deixei claro que não pretendia magoá-la, mas que tinha necessidade de passar algum tempo sozinha. Ela reclamou um pouco e ficou perguntando por que eu não fazia isso no dia seguinte. Por fim eu disse que estava meio confusa e só queria voltar para casa à noite com tudo resolvido. Eu não iria muito longe, prometi. Só queria sair. Prometi que no ano que vem e no outro, nos meus esperados dezesseis anos, faríamos uma festa como ela quisesse.
Assim, passei meu aniversário sozinha. Fui para onde costumo ir com BOB. Fui andando, como que num sonho horrível, até ver um pedaço de corda caído atrás do tronco de sua árvore preferida. Senti um arrepio, mas fui em
frente. Procurei olhar atentamente para a árvore, tentando descobrir alguma coisa que explicasse por que ele escolhera esse lugar, essa árvore. Não havia nada. Certifiquei-me de que não havia mesmo ninguém por perto antes de fazer o que tinha planejado.
Olhei bem, e quando tive certeza de que estava sozinha, tirei do bolso um baseado. Bobby conseguiu um para mim. Ele queria fumar comigo, mas eu disse que não podia. Fumaríamos depois, talvez. Fumei bem devagar e comecei a pensar em sexo. Em homens, em todo tipo de homem, dentro de mim.
Procurei pensar nas coisas que BOB gostava. Tirei uma calcinha do bolso e comecei a esfregá-la na árvore. Eu a estava usando antes de sair de casa,
por isso sabia que o cheiro ainda era forte... Não tenho mais medo de cheirar mal. Sei que não cheiro. Meu cheiro é igual ao de todas as garotas.
Quando pus a calcinha no nariz e cheirei, imaginei uma garota na minha frente, e onde um homem gostaria de tocá-la. Chego perto. BOB diz que se chama boceta. Eu quero tocar nela, está ouvindo, BOB! Eu a cheiro e digo a
mim mesma que não tenho medo. Repeti isso muitas vezes, enquanto fumava e
pensava em todos os jeitos que eu poderia pegar em Bobby... Em coisas que
eu queria que ele fizesse. Pensei em todas as maneiras de fazer com que BOB viesse. Acho que ele estava lá, mas escondido.
Então fiquei completamente chapada, sozinha, e me joguei no chão, rolando sobre as folhas e as agulhas de pinheiros, e olhei lá em cima a grande árvore. Queria que a árvore me visse, memorizasse o rosto da nova
garotinha que estava ali deitada. A antiga não estava mais. Tinha ido embora. Eu só usava a voz dela, às vezes; é tão mais fácil conseguir o que quero quando falo docemente, como uma menininha. Tirei a roupa e comecei a tocar meus seios, lamber os dedos e esfregar os bicos com eles molhados. Circulava- os como os garotos fazem com a língua. Soltava sons quando era gostoso. Gritei quando os belisquei com força e deixei-os vermelhos. O vento começou a soprar, e eu o sentia sobre meus seios nus; lembro-me de ter dito: "Oh, seja o que isso for, eu gosto... Sim... Gosto muito..." Comecei a sentir uma pequena umidade dentro da calcinha... então me despi completamente e gritei bem alto para BOB enquanto esfregava meu botãozinho secreto. "BOB... Bobby... Laura tem um docinho gostoso aqui para você... Gostoso, limpo e... mmmmmmm... Acho que o gosto dele também é bom... Vem, BOB... sai daí e vem brincar..." O vento aumentou, mas BOB não apareceu.
Tive um orgasmo como nunca me acontecera antes. Meu corpo não parava, e eu me agarrava à árvore, arrancava pedaços da casca, agarrava outra vez,
raspava com as unhas... e então foi parando. A maconha e meu espetáculo para as árvores me fizeram tão bem que quase peguei no sono ali, nua. Mas eu não podia fazer isso. Eu tinha vencido esta. Ele não tinha aparecido. Dia ou noite, não conta. Mostrei a ele que não tenho medo. Me masturbei sob a árvore dele. Eu o chamei e o fiz de bobo. Vou passar nesse teste... você vai ver. Se BOB quer sujeira, tudo que preciso é de um pouco de tempo. Posso ser a garota má que ele tanto quer.
Saindo da floresta, quase morri de susto quando uma coruja passou voando na minha frente, vinda não sei de onde. Pude sentir o poder de suas asas batendo perto de mim. Pensei na Senhora do Cepo. Em algo que ela dissera: "Muitas coisas não são o que parecem".
Em geral tudo isto me assustava. Este lugar, o mais leve pensamento de me masturbar, e me excitar, tudo me assustava. Não assusta mais. Não, esse
lugar onde estive não é o que parecia. Sei agora que é um lugar de trevas,
mas eu gosto dele. Seja bem-vindo! Não vou mais resistir, mesmo quando ele
escorrega para dentro de mim e me machuca. Encontrei luz e prazer dentro
desse horror. Meu plano ainda não se completou. Voltarei, BOB. Voltarei para me abrir e fechar como você jamais pensou que eu faria. Voltarei.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:49 PM




3 de agosto de 1986
Querido Diário,
Só para completar, passei o resto do dia com Troy nos estábulos. Estar com ele me relaxa, e voltei para casa nessa tarde sentindo-me forte,
completamente nova por dentro. Não me perturbei pensando que fui má, ou
errada, por ter feito o que fiz. Eu tinha decidido parar de ser machucada e judiada por aquele homem. Um homem do qual eu só sei o primeiro nome. Não sei onde mora, de onde vem. Mas vou fazê-lo voltar. Não há prazer num jogo de tortura se a vítima pára de sofrer.
Isso foi há mais ou menos duas semanas... não, talvez uma. Me concentrei muito depois disso. É bom sair com Bobby Briggs. Ele sempre está onde eu quero que esteja, com qualquer coisa que eu quero que ele traga. Ontem resolvi que ele esperara muito tempo para ficar comigo do jeito que ele
quer. Eu, também, já me cansei de só ficar no malho e voltar para casa com a sensação de que tem uma rolha enfiada dentro de mim, impedindo o que eu tanto quero que aconteça. Mas eu quero que ele me veja como a garotinha de catorze anos que acha que sou...
Papai e mamãe saíram a tarde toda, e eu avisei que também estaria fora, mas que queria ajudar no jantar, por isso estaria em casa por volta das seis e meia. O rosto de mamãe brilhou ao ouvir isso. Eu tinha que manter meus pais felizes. Tinha que continuar gostando deles, como esperavam que sua garotinha gostasse. Tinha que suportar o que não escolhera, mas que simplesmente me fora dado. Duas vidas. Duas vidas muito diferentes. A sapeca da Laura tinha um encontro com Bobby Briggs em Low Town. Ele disse que conhecia um celeiro abandonado onde ninguém nos encontraria. Gostei da idéia de poder tê-lo só para mim em um lugar onde eu pudesse deixá-lo louco. Fiquei nervosa, um pouco, porque saquei que ele não era o BOB que eu tanto odiava, mas o Bobby que paquerara a risonha Laura Palmer e perguntava se ela queria ser dele. Não importa, eu faria o que ele precisasse. Eu sabia que ele estava ciente de que eu nunca transara com outro cara... sabia que seria diferente com alguém que tivesse cuidado... sabia que ele me faria voltar aos meus treze anos, quando aprendi a gostar da mão de um homem, à noite em um rio, e chorei porque ele se fora tão depressa. Não podia me deixar levar por isso. Sabia que tinha que ser forte. Podia fazer com que BOB me observasse agora... a qualquer momento. Não podia me apaixonar... certamente não de um modo declarado. Bobby era bonito, e eu diria que ele estava nervoso porque não conseguia pronunciar bem as palavras, e o cobertor que ele trouxera na garupa da bicicleta insistentemente não ficava estendido do jeito que ele queria.
Isso o deixou nervoso, porque eu equilibrava uma garrafa de vodca, uma pequena para os dois, e um baseado (já fumado) entre os dedos, e já não estava tão firme quanto gostaria, e acabei caindo de joelhos para evitar que algo se quebrasse.
Ele ficou muito mal, mas dei um jeito de ele se sentir mais um herói do que um estúpido. Ele não era nem um nem outro, mas deixei-o erguer-me do chão e me apoiar em seu braço. A única coisa que eu pensava era em tomar um drinque e fumar um pouco para poder relaxar. As coisas ficam muito mais fáceis quando me sinto solta e confiante.
Uma das razões de eu gostar de Bobby é que ele consegue maconha sempre que eu peço... tem um amigo que nos compra álcool, sempre que eu quero. Eu gosto disso, dessa espécie de devoção. Gosto do jeito como ele se move, em minúsculas ondas, quando me debruço sobre ele e digo: "Estou a fim, mas vamos com calma". De seu sorriso imediato e de sua prontidão quando assumo o comando.
Afinal, pela primeira vez eu estava começando uma experiência sexual com interesse e afeição. Um pouco de controle sobre mim mesma. Sabia que ele
tomaria as iniciativas quando eu deixasse. Mas, por ora, se era para ele
continuar a me oferecer pequenos prazeres, queria que sentisse que era algo muito valioso... que ele não escolhera um peixe morto, como prometi jamais ser.
Uma hora depois, após me divertir com os lábios dele, e ele vez em quando alimentá-lo com maconha, ou vodca, eu estava pronta, e disse a ele para se deitar e imaginar o que quisesse. Disse-lhe para construir um sonho em sua cabeça e deixar a imaginação me seguir. Era só para ele, nós dois sabíamos disso. Eu o pus, rígido, em minha boca, e tinha na cabeça a imagem das mãos de BOB fazendo nele mesmo... quando ele me fez segurá-lo com a mão... e então estava de volta ao celeiro. Diminuí a velocidade, encontrei o
ritmo que ele gostava, e, mantendo a língua sempre em movimento, eu subia
e descia a boca em volta dele, seguindo os barulhos que ele fazia,os gemidos... ouvindo com delicadeza, certificando-me de que o mantinha onde ele queria estar. Dessa vez não se tratava de atiçá-lo para ter ou não prazer. Ele gozou do jeito que imagino que os homens gozam... subitamente, depois de uma longa escalada interior, e sentou-se ereto com um olhar de assombro e admiração... de gratificação. Um sorriso.
A hora seguinte nós passamos tão grudados um no outro, até acontecer de ele escorregar para dentro. Abri os olhos e o vi fechar os dele. Forcei a
memória de querer isso... para longe de mim. Sentindo-se assim teria sido
muito fácil, mas ao mesmo tempo eu não podia tornar-me fraca.
Nós nos movíamos juntos, e descobri que era cada vez mais fácil manejar, mais fácil de realmente curtir, com meus olhos fechados. Podia me mover junto com ele, rolar e ficar por cima, pôr a mão dele onde eu gostava de senti-la. Ele me fez tão bem, sem dizer uma palavra. Queria que ele
soubesse como foi maravilhosamente bom, trancado dentro de mim, sem nunca
querer sair, só querendo mais e mais! Nós rolávamos, puxávamos e empurrávamos um ao outro, e nos separamos horas mais tarde, quando era impossível continuar.
Senti-me verdadeiramente satisfeita, como se anos de busca e de um vaivém emocional tivessem terminado. A barra de aço que me mantinha pendurada era flexível, transformava-se em carne e se desfazia. A tensão e a ansiedade
há tanto tempo sentidas, sobre como seria quando alguém me quisesse realmente. Não porque quisessem me ver chorar ou morrer lentamente de uma
tristeza inominável. Qualquer um que se importasse com meus sentimentos ia
querer ter certeza de que foi muito bom. Eu me sentia como devia ser, como
se sentem todas as garotas... mas não podia me esquecer que existiam outros mundos para se pensar. Outros momentos. Rudes despertares às horas mais tardias da noite. Um homem à minha janela, sorrindo... oferecendo um desafio só por abanar uma luva preta. Ali deitada, eu me perguntava se ele viria logo, ou se por uma simples decisão minha ele não me assustaria mais, estaria de certa forma eliminado.
Eu não podia confiar nesse tipo de sonho. E de repente me vi diante de um terrível problema. Um terrível e triste problema o qual eu teria de
enfrentar sem a emoção que eu também queria proporcionar! Da boca de Bobby
saíram, lentamente, pequenas palavras de amor, e depois confissões. Logo
em seguida, promessas de fidelidade e felicidade eterna.
Laura, Laura, não ouça nada disso. Só fique observando ele mover os
lábios, disse a mim mesma, só isso. Mas Bobby falava a sério. Era, afinal, o cara que há anos me admirava, que puxava meu rabo-de-cavalo o tempo todo
que usei um, e logo depois fazia questão de cruzar comigo pelo menos uma
vez por dia, ou atrair meu olhar na classe. E sorria, como se tivesse sido
um olhar inesperado.
Sei que tinha planejado tudo isso. Mas a Laura que correspondia ao amor dele, a jovem que tanto queria que ele a procurasse na hora certa, não podia sair para brincar. Ela estava lá dentro, descansando. Bem lá dentro, embalada pela metade mais corajosa. Aquela que quer ver Bobby satisfeito sim, mas além disso não tem nenhum outro interesse. Não há força nele... não há desafio. Vou mantê-lo comigo, vou cuidar dele para ela, até que ela possa voltar com segurança. Mas essas palavras de amor são reais demais, inocentes demais. E esse cara, tão jovem, é um mero mensageiro para a Laura que está vivendo aqui e agora.
Fui obrigada a cometer uma crueldade. Algo que o fez talvez, repensar tudo o que sentia por Laura. Era preciso que ele a visse como algo que jamais
pensara existir. Eu tinha que rir dele. Muito. Rir até que seus olhos perdessem o brilho. Tinha que acabar com ele, não podia permitir que ele se tornasse tão atraente à mesma Laura que BOB queria. Aquela que, tenho
certeza, ele está esperando. Para salvar a mim mesma, tive que rir na cara
de um garoto, que talvez nunca mais consiga ser sincero novamente. Eu tive que fazê-lo! Por que dói tanto me proteger? Onde estava esse amor quando eu implorava de joelhos por ele? Merda! Sei que o magoei... espero que um dia ele entenda por quê. Nunca quis acabar com alguém do modo como acabaram comigo. Se tivesse sido eu a causa desse riso, não sei se conseguiria me manter em pé novamente - jamais me aproximaria de alguém nem mesmo para cumprimentar, porque essa risada ainda estaria soando em meus ouvidos.
Novamente estou envergonhada e confusa com as coisas que acontecem comigo. Seria um truque de BOB? Outro teste? Arruinando minha chance de amar o cara certo, forçando-me a humilhá-lo, o jeito como tenho sido, e agora
fria e amarga por causa dessas cicatrizes?... Será que Bobby vai se recuperar e ver que não tive essa intenção? Ou será que fui obrigada a estragar um romance ao qual deveria proteger pelo menos durante o dia?
O que a vida quer de mim? O que foi que eu fiz, e o que vou fazer agora? Só quero parar essa dor, e não eu mesma começar a espalhá-la.
Estou pensando... pensando.
Tudo o que tinha de ser feito foi feito. Se isso foi algo que BOB fez, então ele só terá uma vitória surpreendente se eu não mostrar nenhum lamento... nenhum... remorso. Não importa. Se não voltar, é só assobiar que ele responde. Deixe que o cara mereça minha atenção fora da luxúria do
celeiro, fora dos beijos que só dou quando estou a fim, não só porque estou a fim. Vou me tornar uma profissional em não sentir absolutamente nada. Vou descobrir o jeito de fazer isso. A metade do tempo nem mesmo acredito que o que estou vivendo é real. Estou perdida. Perdida. Mas uma Laura mais forte, mais manipuladora, está levantando a cabeça, e se abrindo para os perigos e os jogos que só acontecem no escuro.
Quando eu descobrir quem ele é, vou dizer a todo mundo!
A uma Nova Força, Laura

Posted by LAURA PALMER 8:40 PM




4 de agosto de 1986
3h30 da madrugada
Querido Diário,
Ocorreu-me agora que decidi topar. Depois de repetir isso a mim mesma
parece que há anos, finalmente tenho a sensação de que resolvi juntar-me a
ele com o único propósito de combater. Unir-me à escuridão, e talvez contar com o pouquinho de luz que ainda existe dentro de mim, e usá-la como a força que deveria ter sido sempre.
Ah, os encantos da vida! Esse momento especial em que uma mão se ergue, seja de uma forma visível ou verbal, para gritar "PARE, ela está morrendo!" Essa criança está morrendo sem uma personalidade firme que todo mundo parece combater, como se fosse uma inconveniência.
Procurei com muito cuidado e encontrei um espaço dentro de mim que diz que talvez seja tarde demais, que os meus olhos não são os de uma menina de quinze anos, mas de alguém que tem medo de olhar à sua volta e questionar
as coisas mais simples.
Minha cabeça, continua, não é a de uma jovem que imagina a vida como um monte de suéteres quentes enquanto a fria sedução passa ao largo. Conforta-me saber que a cabeça com a qual vivo pertence a alguém que
conhece muito a vida e como ela quase sempre termina sem calor. Como ela nos distribui bofetadas, nos desafia a sonhar quando na verdade não serve para nada. Como dá um jeito de não considerar que existe um plano traçado no planeta para mim. Esta cabeça sabe. Da realidade de que não existe escolha em momento algum, porque antes de você chegar a abrir os olhos para ver a luz pela primeira vez, alguém de um grande e sub-reptício mal já escolheu você. Gira uma garrafa e se ri diante do poder, num simples jogo de seleção.
Laura

Posted by LAURA PALMER 8:43 PM




6 de agosto de 1986
4h47 da madrugada

Querido Diário,
Não posso me permitir dormir porque quero ver BOB quando ele entrar pela minha janela. Preciso estar pronta.
Tenho pensado muito sobre a minha vida. Estou envelhecendo sem que eu
própria tenha dado permissão. Acredito que, quando ele vier me buscar, ou eu sairei de casa e voltarei ferida mas satisfeita com a morte brutal de um inimigo, ou nunca mais voltarei. E na morte admitida silenciosamente eu nada saberei da força de meu inimigo nem de seus desejos.
No momento estou meio insensível, meio em carne viva. Uma garota que ainda consegue se levantar todas as manhãs e sair de um lugar que depois vão ter que me lembrar que eu chamava de minha casa. Como se nada fosse mais
importante que o rastro de sangue atrás de mim.
Não duvido que BOB esteja ciente de todos os meus movimentos. Que esse horror que chama a si próprio de homem se levante quando o sol brilha ou
talvez se encolha nas profundezas. Não importa. Ele me observa com olhos que me cavam por dentro, vendo cada pontinha de dúvida, sentindo cada palpitação de meu coração quando passa um rapaz, cada abraço de uma mãe que nem imagina a que distância está o quarto de sua filha.
Tento todos os dias memorizar o rosto que me olha do espelho. Procuro não esquecê-lo. Imagino que estarei nas nuvens quando compará-los aos restos
mortais que, tomara, logo serão encontrados.
Sinto tanta raiva e uma necessidade de atacar o céu, de chamar o vento de mentiroso por nunca querer se mostrar. Uma necessidade de gritar aos dois que permitiram meu nascimento. Gritos de socorro a qualquer um que os ouvir. Gritar nas ruas que existe uma ausência de milagres na própria Mãe Natureza. Sua divindade é mentira.
Repetidamente tenho sido levada a uma floresta cheia de árvores. Ali tem lugar uma operação de natureza estranha e indescritível. Sangra. Essa Mãe
Natureza nada tem feito contra esse mal, não abriu suas matas para deixar que um grito escape. Em vez disso, ela protege esse homem e o impede de ser descoberto, a salvo da luz do dia. Ele sabe que o planeta não vai traí-lo. Essa luz virá, e ficará, saindo apenas para voltar na hora marcada. Ele conta com isso. Com os hábitos do universo, cumprindo convenientemente doze horas fixas nos dois extremos.
A sua hora é a noite, durante a qual a salvação é menos possível, e quando a maioria das mais puras esperanças e lembranças, os sonhos mais queridos, estão profundamente adormecidos. Seus olhos movem-se rápidos sob os
cílios. Sem ver nada.
Jamais há um ruído que atrapalhe mesmo aqueles que dormem no quarto ao lado. Jamais o mundo se volta um pouco para mim, faz um olho se abrir...
Ver o homem... ver o modo como seus olhos congelam a imagem de meu rosto num grito. Não se explica POR QUE ele me escolheu, ou pelo menos tem algum plano.
Eu só posso esperar. Manter abertos os meus olhos cansados com a energia do desafio. Uma batalha para ver quem é, de fato, o mais escuro. Quem, quando for obrigado a ver o outro lado, realmente sobreviverá?
Espero sentada a sua chegada, mantendo-me acordada com a certeza de que posso me acostumar muito mais facilmente à escuridão do que ele à luz.
Laura

Posted by LAURA PALMER 8:45 PM





10 de setembro de 1986
Querido Diário,
Fechadas se encontram minha cabeça e suas lembranças. Convenientemente falta ao inimigo uma característica - consciência. "Culpa" é só uma palavra que ele usa para me calar. Ele nem liga para a mortalidade e muito menos para o perigo.
Como poderia esse intruso temer a morte, ou a possibilidade de um
encarceramento, e conseguir ainda vir até minha casa com tanta freqüência,
e usar minha janela como se lhe fosse muito familiar?
Ele zomba de mim, entrando com ares de amigo. Como se fosse um vizinho. Um vendedor ambulante que casualmente se convida a entrar, chega ao ponto de pedir um café, muito educado, antes de se dissolver na fantasia que às vezes é.
Será que ele espera se sentar e bater um papo, antes de tirar de seu
quarto a única criança da casa, para tratá-la como um experimento? Ou eu sonho com ele para viver e devagar estou me matando, ou ele avisou meus pais de suas visitas e ofereceu, em troca da segurança deles, que elas continuem sem possibilidade de interrupção. Eles simplesmente não sabem de nada. Uma carta anônima, em algum lugar da casa. Imagino que eles me ouviriam quando saio. É possível que não se importem?


Posted by LAURA PALMER 8:54 PM





11 de setembro de 1986
2h20 da madrugada
Querido Diário,
Nem posso lhe dizer quanto me chateia não ser uma ameaça para ele.
Ele está muito seguro com a certeza de que sempre pode entrar na minha casa e sair impunemente, sem nenhum ruído. No escuro, ele sabe que vai
conseguir agarrar meu braço com força bastante para me calar, e levar-me,
como uma criança arrasta sua boneca, a um lugar onde ninguém me encontrará. Ele sabe disso porque esse lugar está a quilômetros de qualquer outra fonte de luz além daquela que emana de vez em quando, isso é tão claro em minha memória, de seus lábios e dos olhos - a luz que é roubada de dentro de mim. A garota que, desde que pode se lembrar, esforça-se pacientemente para tolerar, para fazer segredo sobre o próprio homem que quer roubar sua inocência, não permitindo jamais que ela amadureça, não lhe permitindo jamais os prazeres da maturidade.
A fase com a qual essa garotinha tem sonhado desde que aprendeu a pular, a correr, a sorrir até para a mais suave brisa, o jeito como essa brisa a acaricia. Generosamente ela vem se dando sempre, esvaziando o delicado cesto que há dentro dela, de sua alma.
Espero poder chamá-lo logo à minha janela. Tenho medo de que ele esteja esperando por mim, cansado demais dessas noites inteiras escrevendo em você. Esses momentos em que eu fluo para dentro e para fora de uma parte de mim que planeja abrir a janela desta vez e estender minha mão ansiosamente. A parte de mim que duvida que algo realmente exista e que de agora em diante não há mais nada a temer para lá dessa janela, e por isso estou querendo me aventurar no lugar de sempre, sem luta. Eu que juro que um ruído ou um poderoso tapa na cabeça não causará sequer a menor alteração nos passos. A parte de mim que tem ensaiado pedidos de muito mais incisões, mais inserções, mais insultos e ameaças, e planejou continuar com isso até que o apetite dele, antes insaciável, comece a diminuir. O animal petrificado diante do cano de sua arma, implorando para preencher o espaço vazio em sua parede de troféus.
Elimine a excitação. Programe-se. Haverá dor, mas nada pior do que já foi. Agarre-se à imagem de seu lar e de sua cama, e do cheiro gostoso dele
quando você lava, lava, lava. Sua casa espera por você como sempre o fez.
Brinque com ele como ele brinca com você. Aceite que é suja, má e barata e deve ser atirada aos lobos como carniça, e jamais poderá ter filhos, porque quem sabe quais seriam suas características ocultas desde o nascimento até a morte... Não se esqueça de ignorar.
Deixe um espaço interior bastante amplo para receber o peso do corpo dele com todo o ódio e métodos de redução que apenas se aplicam às porções emocionais de cada um, as mais vitais e insubstituíveis de todas.
Acredite que ele só está intrigado com o medo que ele provoca, com a falta de interesse que você demonstra pela vida quando ele a deixa novamente
sozinha em seu quarto. O modo como ele finge tocar a campainha, caçoar de você, da sua vida, das suas esperanças, das suas inseguranças mais íntimas; ele observa enquanto você luta contra a sensação de que não vale nada, de sequer poder entrar na casa onde você deu seus primeiros passos, como se ele estivesse observando você reter uma lágrima antes de ela sair de seus olhos - olha para ele e já não o vê mais ali.
Como se já fosse uma religião, eu entoei inspirações a mim mesma, porque há dias que venho implorando, insultando, e quase querendo que ele venha, e ele não vem. Sinto uma terrível dor de cabeça ao tentar pensar na
fraqueza dele, quando, de fato, eu não poderia começar a conhecê-las.
Talvez eu também esteja errada a respeito do tesão que ele sente só pelo medo desta sua determinada vítima... Preciso dizer sinceramente, estou
cansada de tentar entender esta situação, e acredito que, se eu não dormir
logo, vou começar a ver BOB em todo lugar. Isso, devo dizer, não seria bom
para mim agora.
Estou sozinha aqui, e me vejo pensando em Bobby, que me envolveria em seus braços de um modo que não posso imaginar mais ninguém fazendo.
Tenha cuidado, Laura

Posted by LAURA PALMER 8:58 PM




1º de outubro de 1986
Querido Diário,
Desculpe por não ter escrito, mas muita coisa aconteceu. Hoje, quando
comecei a tirar a roupa para dormir, Bobby Briggs apareceu na janela. Foi uma visão muito bonita que me balançou. Ele disse que tinha uma festa que não podíamos perder, no fim de Sparkwood. Um amigo dele, Leo - acho que já ouvi alguma coisa sobre ele, alguma fofoca - está dando a festa. Eu o preveni, a única coisa que eu pensava era em ficar abraçada com ele, e confessei que andava dormindo muito pouco para ser sociável. Ele garantiu que não haveria problema quando a esse departamento de me manter acordada, porque ele tinha uma coisa para eu experimentar que às vezes impede completamente a necessidade de dormir.
Eu já estava do lado de fora da janela, Diário. Shhhhh!
Vou lhe contar tudo quando voltar. Estou escondendo você... cuidado com BOB... Às vezes ele se atrasa.
Laura
P.S.: Acaba de me ocorrer que o nome de BOB é em si mesmo um aviso...
B. BEWARE
O. OF
B. BOB*

* Literalmente "Cuidado com Bob". (Nota da Tradutora)

Posted by LAURA PALMER 1:23 AM




Passei a noite na festa mais ultrajante que já tive notícia, e mamãe ficou lá sentada, imaginando-me envolvida pelas palavras de um bom livro e
enrolada em um cobertor sobre a grama. Terei que dar um jeito de Troy sair
para um passeio à noite... de alguma maneira... merda! Não tinha pensado nele até agora... Espero que Zippy não telefone para saber se deve sair com Troy... saco. Voltarei logo. Vou telefonar já para os estábulos.
Bom! Bobby pediu a caminhonete do tio para sairmos à noite, e enquanto estávamos na 21 não corríamos o risco de ser pegos... Bobby sem carteira de motorista, eu sem dormir, e uma imensa mentira, no meu caderno, a meus pais...? Dá pra imaginar?
Nós fomos, e a música tocava surpreendentemente alto e claro pela idade da caminhonete... isso me fez sentir que tudo daria certo. O vento soprando nas árvores, a velocidade da caminhonete, a música, meus nervos quando comecei a tirar o vestido que ganhei de aniversário, presente da prima Maddy, que chegou pelo correio.
Não lhe contei que falei com ela durante quase uma hora, na semana passada? Bem, é um vestido lindo de morrer, grudado no corpo, e já vem com um sutiã próprio que permite, se a gente quiser, erguer mais os seios ao invés de deixá-los amassados como acontece com algumas roupas. Bobby quase nos matou, quando não viu uma árvore a poucos metros de distância. Ele disse que não se importaria de morrer "com meus olhos presos nuns peitinhos tão lindos como os seus". Isso não parece letra de música country ou qualquer coisa do gênero... presos nuns peitinhos lindos como os seus...?
Bobby me puxou para o lado do carro antes de entrarmos na casa. Ele me beijou e disse que era importante eu saber que Leo era um cara legal,
divertido, que conseguia se manter num papo. Depois ele balançou a cabeça
em um drástico "N.Ã.O." Eu quis saber que diabo aquilo queria dizer, isto é, e se eu fizesse o que ela dizia para N.Ã.O. fazer? Bobby virou-se quando já estávamos entrando na casa e disse: "Hoje isso não importa. Tenho certeza de que você vai ficar ligada em mim... só não transe com o cara. Ele pratica um tipo de merda muito estranha, esse cara, o Leo..." Eu só olhei, e de repente estava inequivocamente intrigada com a frase "merda muito estranha" e seu contexto sexual. Bobby foi pegar uma cerveja para mim, acho, e Leo se aproximou.
Merda... ali estava, bem na frente.
Nós dois sabíamos, e ele disse: "Laura Palmer... como vai? A última vez que vi você, o velho Dwayne Milford estava lhe dando uma placa ou algo
assim... algum prêmio que você ganhou...?"
Eu o interrompi: "O Melhor Desempenho/Cinco Anos Consecutivos".
Ele perguntou se tinha uma prova de qualidade de desempenho, e eu garanti que provas havia em abundância mas eu estava quase dormindo e morrendo de sede ao mesmo tempo. Ele chamou Bobby, pelo que fiquei muito agradecida, que me via entrando em um quarto, depois de ter me avisado e tudo. (Aguenta aí, vou esticar umas duas carreiras... estou baixando e a fim de lhe contar uma coisa incrível - aguenta.) Então eu estava nesse quarto com Leo e com Bobby, e já íamos começar a cheirar quando a porta de um banheiro se abriu. Um banheiro no quarto... e Ronnette Pulaski saiu dele, parecendo
que tinha desistido de comer um monte de porcaria e começara a cuidar muito bem do que entrava em seu corpo, menos pelo nariz.
Ela estava um tanto alta, e só pelo jeito de Leo balançar a cabeça e dizer um rápido "oi", vi que aquilo acontecia com freqüência.
Quer saber uma coisa louca? Não tinha ficado claro para mim até agora, mas quando fui para o lugar que BOB me leva... e eu estava dizendo que às vezes cheiro minha calcinha e quero pôr o rosto entre as pernas de uma
garota e provar a... (Céus, às vezes é tão fácil dizer, outras não consigo.) Bem, na verdade, eu tinha acabado de pensar em Ronnette, só porque ela foi a única garota além de Donna que já vi sem roupa... nós estivemos juntas num acampamento há uns dois anos, talvez mais, e trocamos de roupa... e sorrimos uma para a outra... acho que me senti de certa forma atraída por ela... pelo jeito como seus olhos me pareceram tristes, mas frios. Eu gostei do corpo dela... bem, foi estranho encontrá-la ali. Nem imagino o que ela pensa de mim... duvido que seja bom perguntar.
Imagine se agora eu preciso de fofocas sobre mim e Ronnette, que estamos nos "vendo" em todas as oportunidades que temos. Mamãe iria parar no dr. Hayward, quem sabe no hospital, e papai certamente preferiria pensar que
estamos nos vendo para conversar sobre um novo jogo... uma variação de "chutar a lata", talvez? Quem se importa com isso!!!!
Nossa, estou no maior barato, parece que estou escrevendo mil palavras em um minuto. Espero pelo seu próprio bem que esteja legível, porque, só Deus sabe, não estou em condições de ir mais devagar. Essa é a droga que esperei toda a minha vida! Sinto-me confiante, forte, sexy, inteligente e super legal, tenho que dizer, e ninguém nessa noite mencionou minha idade.
Posso me segurar numa boa... deu pra sentir a vibração quando entramos. Bobby tinha razão: ia ser uma daquelas super festas. Uma coisa muito doida estava acontecendo num canto qualquer. Leo olhava na maior concentração, e então Bobby e eu fomos ver o que era. Cara, lá estava aquela gata, deitada com a saia erguida, e apostando que ninguém ia conseguir fazê-la gozar... e, se conseguissem, só se fossem uns cem dos maiores. Ela pedia cinco para começar.
Lembre-se de que eu estava naquela festa há um bom tempo, e já estava pra lá de louca, simultaneamente sedada e incrivelmente ligada... Olhei pra
todo mundo em volta, e devia estar tudo ali na minha cara, porque Bobby me
puxou pelo braço mas eu disse que queria tentar, se ele não se incomodasse, mas ele só me olhou como se eu não fosse desistir da idéia de jeito nenhum... então... acho que ele nunca pensou que eu já tivesse ao menos considerado uma coisa daquelas...
Perguntei se podia falar particularmente no ouvido dela... antes de me decidir, e ela disse que adorava minha voz tão perto... então me inclinei
e disse que ia fazê-la se sentir muito bem... Que mais de cem paus já estavam rolando nas apostas...
Olhei por um momento para cima e perguntei se ela estava relaxada. Ela disse que tinha a estranha sensação de que eu sabia o que ia acontecer...
Fiz ela se ajeitar no sofá e a beijei. Só um beijinho de leve nos lábios.
Antes de eu chegar a tocá-la, ela quis que eu soubesse como se chamava... eu disse que a chamaria do que ela precisasse ouvir. Eu estava começando a sentir tesão, o que não pensava que fosse acontecer... mas ajudou... por que os sentimentos trabalharam juntos... e pegou fogo.
Eu a abri e disse que ela era bonita, sabia? Ela fez que sim com a cabeça. Eu disse que não tinha ouvido... Ela disse SIM em voz alta! Eu ri. "Sim, o quê?", perguntei. "Não ouvi nada..."
Ela respirou fundo e enfiou os dedos na boca, e os caras atrás começaram com um "Ééé..."
Alguém derrubou um copo e disse: "Cara, essa mina tá conseguindo fazer a coisa... a outra tá até pedindo, cara..."
Eu sabia que ela queria falar alguma coisa... sabia que ia pedir,
gritar... ela queria ouvir aquilo... para que os caras que estavam lá
ouvissem.
Eu disse que estava todo mundo olhando. Disse que eles podiam
sentir e provar com os olhos... alguns mexiam os dedos para deixar as mãos
quentes. Eu sabia que era para ela, e eu só tinha que mantê-la protegida... ela queria que eu fosse má, e eu disse que ela era bonita. Buum! Ela estava agarrada em mim... puxando meu cabelo... chamando "Laura, Laura... Ai, o que você me faz sentir...!"
Um cara grandão tentava abrir caminho entre os outros para chegar mais perto, e eu pedi a ele que esperasse um pouco... o estado dele não era dos melhores, mas conseguiu ver que a garota precisava desesperadamente de um
minuto só para ela.
Ela me puxou pelo cabelo e disse: "Não consigo fazer isso há dois anos... gostaria de ver você outra vez, se é que não tem medo". Saquei que não era hora de mencionar que eu estava baixando, talvez pela dose excessiva de beijos açucarados... Esse cara avançou até mim e me olhou bem nos olhos.
"Gatinha", ele esperou. "Eu tinha que ver você de perto, sua pele e tudo mais." Ele riu. "Nunca vi tantos caras só ficarem olhando para ela como se fosse nada e só querendo ser você."
Eu disse que ficava contente que ele tivesse gostado... só não queria ter interrompido a festa... era chato ter feito isso... acho que estava meio
fora de sintonia... que eles estavam indo embora porque eu tinha ido um
pouco...
Ele riu e disse: "Ninguém vai a lugar nenhum a não ser lá fora atrás da casa, com uma imagem sua flutuando dentro da cabeça... Vão voltar assim que se aliviarem".
A garota finalmente se levantou do sofá e veio beijar meu peito, no decote do vestido, abaixo do pescoço. Ela quis que eu soubesse que me devia uma, se nossos caminhos se cruzassem outra vez. Leo fez questão de dizer que eu fiz a festa dele. Os caras iam falar nela por muito tempo... Falar de um jeito muito estranho de conhecer pessoas... Vou logo fazer uma visita ao Leo e ver até onde meus pensamentos batem com os dele... Talvez ele proponha alguma daquelas coisas das quais Bobby me preveniu... Aposto que Bobby ficou chocado comigo... não sei o que deu em mim, mas fiz o que quis... queria tentar e deu no que deu... Pouco importa se estou ou se estava no maior barato... me senti bem fazendo aquilo. Pode apostar que vou repetir.
Laura

Posted by LAURA PALMER 1:31 AM




3 de outubro de 1986
Querido Diário,
Não sei por onde começo! Voltei para casa na manhã seguinte, sem nenhum problema com os cães de guarda, mamãe e papai. Eu já estava no meio do
caminho quando me dei conta de que seguíamos em direção a uma parte da cidade cheia de gente pelo menos seis ou dez anos mais velhas do que eu... e eu achava que voltaria antes do sol nascer? Nunca! Sem mencionar que Bobby tinha um tipo de "acelerador" para mim, em algum lugar... pelo menos achei que fosse essa a situação até chegarmos na casa de Leo... Sou culpada pela declaração incompleta do ano em relação a ele. Mas, seja como for, quero antes me gabar um pouco da confusa trama que eu mesma armei, sem que nenhum fiozinho ficasse fora de lugar ou tenha sido questionado, quando cheguei em casa por volta das seis horas do dia seguinte!
Preciso dizer que agora eu já tinha passado para uma dimensão de intensa falta de sono? Três dias e quatro noites... e considerando-se o
presente que ganhei como um prêmio de iniciação quando saí, eu poderia ficar acordada até o mês que vem, perdendo de um modo indolor um quilo atrás do outro... (cinco ou seis desde o último dia que dormi). Descobri que qualquer que seja a droga, se houver alguma, que tenho dentro de mim, quanto menos durmo, menos como.
O bilhete era simples e ia direto no ponto. Pule essa parte se ela lhe aborrece, mas acho que ganhei uma certa satisfação e prazer por jogar areia nos olhos da "rapaziada" (como diz Bobby).
Mãe, são cinco horas da manhã e estou tentando insistentemente voltar a dormir. Depois de quase duas longas horas de tentativas inúteis, me lembrei de repente da clareira na qual estive à tarde com Troy. Ele gostou de pastar por lá, e acho que um cobertor e um livro são o que preciso para a distância que eu acho que preciso sentir.
Não de você, mãe! Posso ver você tomando isso pessoalmente, mas não. O que eu quero é ficar longe das pessoas. Passar algumas horas com meu pônei,
Troy, e talvez conversar um pouco com Nancy Drew ou qualquer coisa assim.
Por favor, não se preocupe. Telefonarei antes das seis horas se ainda não tiver chegado.
Amor, Laura.

Posted by LAURA PALMER 1:26 AM




14 de dezembro de 1986
Diário...
Sonhei com BOB essa noite. Não foi um sonho nada bom, um pouco
desagradável, na minha opinião, porque sinto muito ódio por ele ter me
estragado... fazendo-me sentir feia e má por querer amor e afeição... Ele
destruiu todo o meu orgulho e amor próprio há muito tempo... A única coisa
que conseguia era ser boazinha e doce, porque isso era muito fácil... ter
boas notas mais fácil ainda. Ninguém me queria... Eu nem conseguia aceitar
que sabia o que era sexo.
Ele me destruiu, não foi? Isto é, no sonho ele foi até a janela de Leo e me viu. A cena era pior no sonho do que tinha sido na realidade. Ele
ficava mostrando essa imagem para mim o tempo todo.
E então ele ficou parado embaixo da árvore, dizendo: "VOCÊ NÃO TERIA
CONSEGUIDO FAZER NADA DISSO SE NÃO FOSSE POR MIM".
Eu disse que ele estava enganado. Disse que aprendera tudo o que viu
quando estava sozinha, porque eu tinha conseguido me sentir bem e curado as feridas que ele me causara.
Ele disse: "AH, SIM, ENTÃO POR QUE VOCÊ QUER QUE LEO AMARRE VOCÊ, TALVEZ QUE COMA VOCÊ ASSIM, E FAÇA DE VOCÊ UMA ESCRAVA ? SEI QUE VOCÊ QUER ISSO... EXATAMENTE COMO LHE ENSINEI, PUTINHA. VI VOCÊ COM O PAU, BRINCANDO CONSIGO MESMA... ESTAVA PENSANDO NESSE CARA MAU, O LEO, E NÃO NO BONZINHO DO BOBBY QUE FICA CHORAMINGANDO DEPOIS DE SER FODIDO POR UMA PORCA COMO VOCÊ".
E eu acordei. Envergonhada. Horrorizada. Culpada. E de repente parece que o vi, bem na minha frente, nos pés da cama.
VOCÊ ESQUECEU, LAURA, QUE EU SEI DE TUDO, VEJO TUDO, VOU AONDE QUERO... SEI MUITO MAIS DOS SEUS PENSAMENTOS SECRETOS DO QUE VOCÊ MESMA! VOCÊ BAIXOU A GUARDA, NÃO FOI? EU QUERO TIRAR UMAS BOAS FÉRIAS DA VAGABUNDA QUE VOCÊ É... E VOCÊ VAI TER QUE ME CHAMAR DE VOLTA... PUTINHA RANÇOSA! VOCÊ É BEM MALVADINHA COMIGO QUANDO ESCREVE, NÃO É? VAMOS TER QUE ACERTAR ISSO. FAZER VOCÊ ME AMAR COMO SEMPRE ME AMOU. LEMBRO-ME QUE... LOGO VAI ACONTECER.
E então ele desapareceu. Preciso fazer alguma coisa certa e boa, hoje
mesmo!
Quem é ele, caralho, e por que me odeia tanto?
Quero morrer e esquecer tudo isso. Não agüento mais! Começo a me sentir bem e de repente vem alguém que me faz sentir suja. Então outro me beija em seguida e me sinto desejada e excitada novamente. Preciso saber se o que estou fazendo está certo. Não posso permitir que seja BOB o responsável por eu querer que me amarrem às vezes. Não quero nunca que me machuquem. Nunca. Só quero participar de jogos onde tenha que dizer coisas feias às vezes, não as que BOB pensa, e se for punida, que seja com sexo, não com dor.
BOB não coloca idéias em minha cabeça. Não quero que seja ela a fazê-lo. Esses pensamentos são meus e particulares.
Tenho medo de nunca mais conseguir ter outra experiência sexual, nunca, sem ficar achando que ele virá para contar a todo mundo mentiras a meu
respeito. Se alguém que gosta de mim ler isto daqui para a frente, por favor não me odeie. Só é assim porque é o que sinto. Não estou magoando ninguém, nem quero fazer isso. Esforço-me diariamente para ser uma pessoa melhor, como
acho que o mundo espera de uma garota como eu. Mas eu sou Laura. Sou uma pessoa triste. Meu Deus, estou triste de novo! Por quê? Não consigo mais rir ou viver de dia, um tempo que é passado com meus amigos que não dão importância ao que penso nas horas tardias da noite.
Eles não me odeiam por às vezes sonhar enquanto durmo, com uma das
mãos enterrada entre as pernas, morta de vergonha, e desejando que a outra
mão simplesmente aperte o gatilho.
BOB, proíbo você de me procurar outra vez, seja em sonhos ou na realidade.
Você não é bem-vindo! Odeio você.
Sinto-me sozinha, Laura

Posted by LAURA PALMER 1:32 AM

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