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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1987
(De Janeiro a Dezembro)


10 de janeiro de 1987
Querido Diário,
Tentei conversar com papai à mesa do café mas ele ficou ali se contraindo, como se não tivesse tempo para pensamentos extras. Não tem tempo para os malditos sonhos suicidas que sua própria filha está tendo. Nenhum dos dois quis falar comigo... O que é isso? Algum tipo de sonho?
Papai tirou toda a roupa e gritou: "Isso é um sonho... Relaxe, está
bem?... Então sua mãe viu fotos suas lambendo as partezinhas privadas de outras mulheres. Eu aparecia naquelas fotos nas quais você se divertia
sozinha. Isso é verdade?"
Nunca tive tanto medo quanto agora, neste exato minuto. Nem percebi que estava dormindo quando isto foi escrito... Será que estava? Merda, isso é muito estranho. Muito, muito estranho.
Será que BOB estava aqui? Será que BOB estava dentro...?
Nem quero pensar nisso.

Posted by LAURA PALMER 1:34 AM




3 de fevereiro de 1987
Querido Diário,
Não há cocaína. Ela desapareceu. Odeio o modo como me sinto... como se estivesse num vácuo, meu corpo tem sido violado, meus pensamentos, meus
sonhos, a imagem que tenho de minha mãe e de meu pai são agora de figuras
terríveis e deprimentes, as quais não consigo deixar de ver... Ah, se ela
soubesse das coisas que têm acontecido.
Será que alguém acreditara se eu contasse tudo o que sei sobre ele?
Poderia ter a polícia esperando quando ele se mostrasse, mas ele saberia, como sabe de tudo o que se passa em minha cabeça. Minha cabeça é o brinquedo dele. Algo em que ele bate com suas patas. Vou contar pra todo mundo e fazer com que acreditem. Vou dizer...
DIZER O QUÊ, LAURA PALMER? DIZER QUE A LEVO COMIGO E VOCÊ NUNCA RECLAMA? DIZER QUE SÓ VOCÊ ME VÊ E NINGUÉM MAIS? NINGUÉM VAI ACREDITAR, LAURA
PALMER... EU SOU MUITO CUIDADOSO.
Deus do céu, aconteceu outra vez... Ele está aqui em cima da página... Não era nada disso que eu queria escrever! Assusta-me terrivelmente saber que BOB consegue entrar nas páginas do meu diário como se estivesse
alimentando minha mente com palavras, uma fração de segundo antes para que
eu pense que elas são minhas.
Existe alguma coisa que eu possa conseguir para você, BOB... alguma coisa que a família possua e que sirva como garantia para que você desapareça
definitivamente? Fale comigo BOB... para um acordo... proponha alguma coisa.
EU TOPO. VAMOS FAZER UMA TROCA.
O que é?
NÃO POSSO DIZER AQUI NESTA COISA... POSSO MUDAR DE IDÉIA.
Foi o que pensei.

Posted by LAURA PALMER 3:58 AM




2 de abril de 1987
Diário,
Preciso de coca, saco, ou jamais vou conseguir.
Tenho que achar o Bobby. Onde, caralho, ele se enfia quando preciso? Isso é demais. Aqui estou eu, Laura Palmer, ótima aluna, cidadã modelo de Twin Peaks... e acabo de adquirir um novo hábito. Não estou preparada para isso... Ainda tenho medo de que BOB esteja esperando. Se ele estiver na floresta vai me pegar agora, porque eu que me dane se não der um jeito de enfiar uma carreira bem grande de confiança dentro do meu nariz em no máximo meia hora. Uma linhona branca que chame por mim do jeito que um amante faria. Gostaria que BOB tivesse proposto a troca. Se ele topar, vou tentar encontrar a pessoa e dizer que tome cuidado COM O
HOMEM QUE PODE QUEM SABE ESCORREGAR PARA DENTRO E PARA FORA DE VOCÊ COMO O VENTO QUE NINGUÉM PERCEBE, DEPOIS RASTEJA EM CIMA DE VOCÊ E ENFIA UM PUNHO DENTRO DO ESPAÇO DA MULHER QUE VOCÊ PARECE GOSTAR TANTO, LAURA PALMER... VOCÊ NÃO DEVIA DESEJAR NADA... VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR O QUE QUER, PODE TER CERTEZA. LEMBRE-SE, LAURA PALMER, POSSO MANIPULAR SUA CONSCIÊNCIA PARA QUE VOCÊ NÃO SINTA NADA ALÉM DO QUE EU PERMITIR. NÃO SENTE QUE ESTÁ MORRENDO, LAURA PALMER? NÃO PERCEBE QUE ESTÁ CEDENDO PARA MIM NOVAMENTE? RECEBA-ME DE VOLTA E EU NÃO PROVOCAREI UM HORRÍVEL ACIDENTE LOGO MAIS. SE ALGUÉM SAIR FERIDO, VOCÊ PODE SORRIR SABENDO QUE FOI TUDO POR SUA CAUSA, EGOÍSTA, VICIADA, LÉSBICA!
Vai se foder!
Talvez se eu for atrás de Leo por um pouco de coca, consiga reunir toda a minha merda e merecer a liberdade. Minha privacidade de pensamento,
inteirinha. Quero-a de volta. Ela me pertence. Só preciso de um pouco de
coca... tenho que sair um pouco daqui... foda-se, vou andar. Vou descer essas escadas e sair por aquela porta como se nada estivesse errado.
Consigo um pouco de coca e tudo ficará melhor. Vou conseguir pensar. Vou andando até a casa de Leo e tudo ficará ótimo.
Vou levá-lo comigo, Diário -
Laura

Posted by LAURA PALMER 3:59 AM




2 de abril de 1987
Querido Diário,
Leo tinha companhia do sexo feminino, e eles não estavam em condições de abrir a porta.
Oh, céus... dinheiro... merda! Talvez ele me apresente a coca e eu possa pagar depois, ou... espere, ele está saindo de casa. Conversaremos mais tarde,
Leo vai topar que eu traga o dinheiro depois. Espero, espero, espero.

Posted by LAURA PALMER 4:00 AM




2 de abril de 1987
De volta, e feliz, da casa de Leo.
Ele tinha, e era ótima. Ele me levantou com uma boa cheirada... e minha cabeça já começa a repassar os arquivos mentais outra vez... sinto o sangue nas veias... Eu disse a Leo que não era como aquele viciado horrível, mas há tanto tempo que eu não dormia... Espere! BOB se foi. Não posso senti-lo à minha volta. Talvez porque eu esteja tão alta. Talvez eu esteja louca e o tenha inventado... Não, nada disso. Sou louca se pensar que ele só existe na minha imaginação... ele é real. Sei que é real. Tenho certeza. Eu não poderia e não criaria algo tão mal como esse homem de quem falo.
Estou começando a ser aquilo que BOB me disse que me tornaria. Uma garota decaída, maltratada, não confiável, perdida, que adora sexo e drogas
porque eles estão sempre aí, me proporcionando as viagens que espero... sem surpresas. Não vê que está me matando, BOB? É aí que você quer chegar?
Lá se foram os dias de apenas um ano atrás em que eu mal podia me lembrar de alguma coisa... só sabia que certas noites eu chegava em casa, chorava muito e me escondia atrás da porta do banheiro, envergonhada. Lembro-me do que você me disse, seu bosta! Lembro muito bem! Sei que você me cortou quando eu era bem pequena, várias vezes, e me disse que eu estava numa enrascada porque estava sangrando. Disse que as crianças boas não sangravam entre as pernas. Disse que eu não era uma criança de Deus! Será que havia alguma coisa na qual você me deixava ser normal ? Cresci com você sempre por perto, mostrando as evidências de meu maldito sangue e minha maldita natureza. Você era aquela voz... seu filho da puta.
Leo precisa falar comigo sobre dinheiro... Espero que essa transação seja tranqüila, indolor e silenciosa. Eu pedi a Leo que se Bobby aparecesse,
que me procurasse imediatamente.
Tínhamos que encontrar um novo traficante só para essa noite... O resto da pura eu já tinha cheirado, menos a da reserva pessoal de Leo, porque é exatamente o que diz o nome: pessoal. Se eu não tivesse tanta merda na cabeça, não precisaria mais que isso para a noite, mas eu tinha. Tinha que
ter. É só o que tenho agora, cara. Minha amiga, a linha branca, de quem eu
lembro convenientemente o tempo todo, sempre que viajo numa rodovia, ou vejo uma tempestade de neve, ou talco de bebê, vem me provocar dentro de minha casa.
Espero que a gente consiga mais. Temos que conseguir. Depois dos últimos dias sem dormir, esse maldito BOB... simplesmente não vou conseguir pegar no sono. É perigoso demais.
E O QUE SÃO, LAURA PALMER, DOIS, TRÊS DIAS DESDE QUE VOCÊ RESPIROU PELA PRIMEIRA VEZ... VOCÊ É UMA PUTA ATRAPALHADA... QUE AINDA ESTÁ AQUI.
Vai se foder, BOB. Então sou o que você sempre me disse que era. Uma putinha, suja e desleixada, que fode com todo mundo para pagar as drogas. Você venceu. Você me causou dor quando eu não sentia nenhuma, e quando eu sentia dor você dizia que a culpa era minha... acho que você é o cara mais repulsivo, maligno e conivente que já pôs os pés na minha vida, e sem ser convidado; não tinha esse direito. O que você quer, caralho? Você trapaceia porque nunca teve que enfrentar ninguém mais forte... Ganhe alguém assim, e eu admitirei que você venceu. Até vou atrás de você. Sem brigas.
Laura Palmer acredita que você é um impostor.

Posted by LAURA PALMER 4:01 AM



24 de junho de 1987
Querido Diário,
Já é muito tarde e nem me importei em me registrar ou avisar alguém de onde estou ou se estou a salvo. Nem estou ligando para isso. Não quero
saber mais nada sobre mim mesma, por ninguém... muitas mentiras entraram
em mim, como projéteis que entraram em mim, como atrás eu teria percebido.
Começo a sentir a fraqueza. Cair no mundo das drogas. O mundo do sexo pelo espetáculo e pelo poder. Pela força que pensei que quisesse, procurei as pessoas erradas.
A parte de mim com autonomia para decidir se uma coisa é certa ou errada desapareceu. Uma decisão dura um único momento, antes que eu duvide delas e me amaldiçoe por sempre achar que fosse capaz de escolher o certo em vez do errado... eu devia ter aprendido há anos como me lembrar de você. Talvez tivesse me salvado em momentos muito tristes, em sonhos muito maus, em várias centenas de tentativas desesperadas de retornar um eu melhor.
Aquele que recebeu você tão bem. Aquele a quem você deve uma vida inteira.
Certamente espero que você consiga o que deseja.
Não posso ter boas coisas, não agora. Não conheço o caminho da
responsabilidade, não sei como utilizá-lo. Tão simples, é só sair andando...
Mandei Troy embora. Libertei-o com várias chicotadas no lombo (um método que me fez correr por um bom tempo, você se lembra, BOB?). Ele se foi. Eu não o mereci, e nem ele merece uma vida que começa e termina todo dia num pequeno quadrado. Uma lembrança constante, se preferir, de que ele não é livre mas que pertence a alguém.
Deixei o pônei ir. Uma das minhas últimas esperanças, antes de anular tudo por você... merda. Já não importa mais nada.
Espero que Troy entenda por que fiz ele me deixar.
Tenho tanto medo que qualquer coisa que eu toque corra o risco de
estabelecer contato com BOB. Estarei investigando a morte... não se preocupe. Posso sentir você decidindo quando e onde. Seu cretino.
Laura

Posted by LAURA PALMER 4:02 AM




12 de novembro de 1987
Querido Diário,
Espero que Deus leia isto: poderia utilizar a ajuda.
É definitivamente o fim da minha vida, o fim da minha crença em mim mesma... a confiança... tudo se foi! Leo e Bobby foram me buscar no estábulo porque eu mal podia dar um passo. Bobby disse que telefonara para casa avisando que me levaria a um jantar surpresa... voltaríamos tarde. Isso foi muito delicado da parte dele, devo admitir. Mas como eu disse ao Leo e ao Bobby, do banco traseiro do carro enquanto trocava de roupa (outra vez graças ao Bobby por ter pedido emprestado alguma coisa de Donna - que disse a ele que estava preocupada comigo).
Admito alguma surpresa aqui, não por duvidar da lealdade de Donna ou de sua amizade, mas por agora acreditar muito mais em BOB. Eu disse a eles que estava preocupada. Que tinha um bom motivo para não ir a nenhum lugar, naquela noite. Disse que eu estava mais a fim, se todos concordassem, de voltar e deixar a cocaína para amanhã. Bobby riu e Leo deu um tapinha na minha mão como se eu fosse muito engraçadinha, um cuco que ficava repetindo sem parar a mesma mensagem. Puxou um elástico nas minhas costas, desnecessariamente.
"Eu não acho que isto esteja muito seguro."
Nós passamos por Mill Town e entramos em Low Town. Jamais vi uma noite tão escura. Não havia lua. Isso também preocupava Leo, que tenho certeza tomará conta de mim, até o fim. Tudo o que preciso agora é uma substância ou a grana para comprar a substância. Minha amiguinha. Outra mentira, mas pelo menos encarei esta bem de frente e disse que acreditava nela. A felicidade temporária é melhor do que, aos poucos, ir colecionando amigos, família e amantes, um terrível vislumbre de como estou muito perto da autodestruição. Não se aproximar demais: já não há nenhuma segurança. Eu lhe garanto isso.
Entramos em uma estradinha sem sinalização de espécie alguma, mas que
parecia ser a certa, já que era a única há muitos quilômetros. Bobby parou o carro e ficou ali, antes de seguir até a casa. Leo o encorajou: "Anda, Bobby, vamos lá". Eu tentei também chamar a atenção dele, mas sinceramente ele parecia estar em outro mundo. Sua cara era de quem estava no Limite da Realidade.
No instante em que Bobby voltou a si, começou a descer a estrada, e na completa escuridão a nossa frente se escondia uma casa. Que eu esperava estar repleta a um nível obsceno de cocaína e um rápido drinque se eu conseguisse sorrir... Mostrar os dentes, pensei.
Leo olhou para mim como se de repente tivesse sacado que não era bom estar ali, naquelas condições, sem conhecer ninguém, e carregando mais de mil
dólares em dinheiro. Eu afundei no banco de trás e calei a boca, percebendo de repente como foi ridículo ter mudado de roupa... só podia estar vestida para confusão, indo a Low Town tão tarde da noite, naquela escuridão, ainda não explicada em nenhum jornal ou noticiário de rádio.
Eles nunca dizem que há uma falha no poder.
- Vocês sabem quanto tempo a polícia leva para chegar até aqui? -
perguntei.
Bobby tirou de dentro da jaqueta o revólver de seu pai. A coisa brilhou levemente, e eu disse que ele era completamente maluco de andar com aquilo. Eu já tinha certeza de que o que eu estava experimentando não era uma dor de estômago, mas sim um óbvio instinto visceral de dar meia volta e começar a correr, e só parar quando estivéssemos perto de casa. O carro não parou e não voltou. Não havia sinal de vida na estrada, nenhuma casa, nenhuma maldita alma por ali... bem, talvez uma ou duas... o que era uma razão a mais para fazer uma retirada silenciosa enquanto ainda tínhamos chance de sair de lá juntos.
Por nada, me pareceu, Bobby meteu o pé no freio. A caminhonete rodou duas vezes, e a poeira brilhou na luz dos faróis. Por fim paramos. Estávamos os três assustados. "Pensei ter visto alguém", disse Bobby. "Não quis passar
por cima."
Nós saímos e começamos a andar bem devagar no escuro. De repente alguém me agarrou por trás e começou a me enforcar. Não acredito que vou morrer assim, pensei... em Low Town, em plena escuridão, ninguém jamais admitiria que isso acontecesse, tentando comprar drogas, cocaína para ser mais específica, e sem que os dois caras fortes e corpulentos que estavam comigo percebessem que eu estava sendo estrangulada! Pensei nisso... eu tinha ido comprar uma maldita fazenda ali. Em dinheiro. E à vista. Os dedos se afrouxaram, minha visão ficou embaçada e comecei a ficar fria.
Acordei naquela droga de casa do traficante com uma dor de cabeça que
pensei ser um aneurisma. Bobby e Leo entraram no quarto, e Bobby obedientemente sentou-se ao meu lado e mostrou-se preocupado com minha cabeça, e isso me fez lembrar o que tinha acontecido. Eu disse (devo acrescentar que com uma boa dose de sarcasmo): - De quem foi a brilhante idéia de me estrangular até eu ficar gelada?
Ninguém respondeu.
- Então quer dizer que é assim que os caras chegam nas meninas aqui em Low Town? - Silêncio.
- Que finos!
O mais gordo dos quatro almofadinhas tirou um revólver da camisa e apontou para mim. Olhei-o como se ele estivesse completamente por fora... que um "Cala a boca" ou "Vai se foder" seria perfeitamente claro para mim. Ele
armou aquela maldita coisa e encostou no meu rosto.
- Peço desculpas, docinho. Não posso esperar que todo mundo que use
vestido seja uma garota. - Ele olhou para mim e lambeu o revólver.
- Lindos peitinhos!
- Eu sei.
- Não que a explicação dele por ter me estrangulado fizesse algum sentido. Suas desculpas foram aceitas e, falando seriamente, muito
preferíveis a um buraco na minha cabeça. Ofereci minha mão e agradeci por
ele não ter atirado. Isso teria estragado realmente minha noite. Houve uma
pausa... e nenhum aperto de mãos.
Lentamente, e com grande prazer, ele começou a curvar os cantos da boca para cima, e terminou o espetáculo num sorriso gelado, do tipo "coma a bosta e morra!, como eu só tinha visto uma única vez na vida. Sabia que aquilo era falso. De repente me vi em estado de alerta e muito atualizada na etiqueta do silêncio, pelas quatro armas que encontraram partes muito importantes do meu rosto para descansar seus canos. Metal gelado. Um arrepio na base do pescoço. Medo. Pode me chamar de covarde, mas as armas sempre me provocam hiperventilação e um imenso desejo de grandes quantidades de ar puro.
Eu disse a eles que precisava ir para o carro. Me concentrei no pensamento de que um dos revólveres ia se afastar e traçar uma linha reta para mim. Eu tinha que tomar ar, o que se tornava mais difícil do que em geral é por causa da contração que se instalou no meu pescoço. Por outro lado, morro de medo de balas e aposto um bom dinheiro que elas provocam dor quando entram dentro da carne em alta velocidade.
De repente vi gente com uniformes do exército, todos postados como
pesadelos congelados em volta da casa. Um dos soldados se aproximou da minha janela e eu estava toda encolhida porque fazia frio e eu estava com medo.
Com uma das caras mais assustadas que eu já vi, ele perguntou:
- Você já pensou em morrer?
- Não, senhor. Não numa situação como esta.
Ele me olhou como se eu tivesse feito chegar sua promoção poucos dias
antes da data marcada. - Por favor, senhorita, queira sair do veículo.
- Você vai atirar em mim ou qualquer coisa assim?
- Foi roubada uma boa quantidade de cocaína dessa casa. Achei que a
senhorita gostaria de me mostrar que está tudo limpo com sua caminhonete, e nos deixe trabalhar. É só rotina. Saí, e achei que meus ossos fossem se partir em pedacinhos, de tão assustada que eu estava.
- Está tudo bem?
- Do lado de cá da minha arma, está.
Eu não conseguia me mexer.
- Aí do seu lado não é exatamente uma festa, não?
- Não. Não, é mais como acordar... não uma festa em que eu gostaria de ir. Senhor.
- Você pode entrar no carro e relaxar.
- O que está acontecendo na casa, agora?
Ele deu de ombros. - Acho que os rapazes estão reunidos, discutindo se estouram ou não a cara deles ou se os mandam de volta a High Town do mesmo
jeito que eles vieram.
- Ah. Me sinto muito melhor agora. Obrigada.
Tive que ficar ali naquela maldita caminhonete por quase quarenta minutos esperando para saber se Bobby e Leo voltariam para casa em estado ainda sólido em vez de numa forma líquida. Finalmente eles saíram pela porta da frente dando tapinhas nas costas daqueles valentes e rindo como se fossem velhos conhecidos. Eu pensei, pô, isso é demais! Estou aqui sujeita a levar um tiro à queima-roupa por ter passado a mão em um quilo de cocaína (com cuidado enfiei o pacote embaixo do vestido, sem deixar fazer volume para não dar bandeira do roubo), e o agradecimento que recebo é esses dois virem para o carro a passo de lesma. E dando um exemplo grosseiro da solidariedade masculina, se é que já vi alguma.
E então vi um medo absoluto saindo pelo olhar de Bobby direto para mim e registrei. "Olhe!" Os revólveres começaram a atirar, como se a NRA
(National Recovery of Administration - Reconquista Nacional de Administração) tivesse aceitado recrutas reconhecidamente cegos. As pessoas estavam atirando umas nas outras... paranóicas, e com uma fúria que, se fossem atingidas, só perceberiam amanhã.
Eu escorreguei no banco do carro e dei um jeito de me enroscar em Leo, que estava escondido, desarmado, rezando como um louco, e o carro arrancou em direção à cidade.
Então foi minha vez de lançar um olhar de "Merda!" Quando já estávamos perto do asfalto, olhei pelo retrovisor e vi alguém na cama da caminhonete com Leo, e Leo ia perder uma coisa terrível. Bobby sacou a arma e com a mão livre esticou-se para fora da janela e disse pro cara que ele tinha dois segundos para sumir dali ou morrer. Tinha que escolher depressa...
O cara sentou, e Bobby atirou no peito dele a uma distância de menos de um metro. A força da bala jogou o cara para o fundo da caminhonete, no chão
atrás de nós. Bobby gritou para mim: "Vamos embora daqui. Guie!"
Tão logo chegamos no asfalto, Bobby abaixou-se na cabine, ainda com a arma na mão, como se estivesse pronto para atirar. Ele ficou em silêncio o caminho todo. Leo estava lá atrás agradecendo a Deus pelo milagre da prece. Eu queria saber se havia muito sangue espalhado e se o cara tinha morrido...
Na casa de Leo, desci do carro e perguntei se não tinha ninguém lá. Ele
disse que não, então tirei o quilo de cocaína de dentro da saia, envolvido
em um plástico, novinho em folha. Bom trabalho, pensei, para uma amadora.
Pedi desculpas ao Bobby por provavelmente ter causado a presença daquele homem no carro.
Fui revistada, contudo, e o cara disse que eu estava limpa. Achei que eles estivessem convencidos, ao ver todo mundo abraçado na saída.
- Eles estavam dizendo para nós, baixinho e bem devagar, que nos
encontrariam e cortariam nosso pau centímetro por centímetro. Se o bofe que veio conosco estivesse sentado em cima da cocaína deles, não ia demorar para irmos parar no hospital e direto pro inferno.
Eu me sentei e pensei um pouco na palavra "bofe".
- Ô caras - disse - sinceramente eu sinto muito. Não teria feito isso se não achasse que vocês iam pular de alegria quando soubessem.
Nenhuma resposta.
- Não fui eu que disse pra não irmos lá?
Um sorriso dos dois.
Leo balançou a cabeça na direção do pacote e disse: - Você tem uma parte nisso.
Bobby virou-se para mim e me olhou orgulhoso. - Uma perfeita dupla Bonnie e Clyde.
Esse drama terminou e outro ainda estava por vir. É claro que nós
começamos a cheirar em quantidades jamais aceitáveis pelo corpo humano. Se as balas não tinham nos matado, a montanha de cocaína faria o serviço logo, logo.
Nós estávamos na maior loucura. Resolvi sair. Queria alguma coisa lá do Cash and Carry. Nenhum dos dois podia sequer imaginar em sair do sofá.
Estavam grudados na televisão, e curtindo um orgulho de macho por estarem diante de uma montanha de cocaína, com três canudos enfiados num buraco feito no saco.
Eles olharam para mim com cara de cachorro cansado, as pupilas dilatadas e disseram: - Tudo bem se a gente ficar aqui? - Fiquei um pouco chateada com Bobby por não se oferecer para escoltar sua própria namorada, a mesma que arriscara a própria vida, por mais desvalorizada que estivesse no momento, para garantir todo aquele barato que estávamos.
Tive vontade de torcer aqueles dois e decidi que podia guiar duas quadras até o Cash and Carry, sem ficar molhada de suor ou ter um colapso
emocional.
Saí com o carro, e quando passei pelas únicas duas casas que havia no
caminho, notei uma revista caída no chão da caminhonete, que antes eu não
vira. Fleshworld Magazine.
Minha cabeça começou a trabalhar; essa revista talvez pudesse me ensinar alguma coisa que eu ainda não soubesse... e BAM! Subi com a caminhonete na calçada, e antes que eu pudesse sair para ver o que tinha atingido, vi a mim mesma há quatro anos. Uma menininha, despertada pelo barulho, sair correndo pela porta de sua casa e diminuir a velocidade ao ver o bichinho no meio da rua.
Ela olhou pra ele e chegou mais perto, mas não muito, como se para poupar a si mesma da realidade. Virei-me e vi Júpiter. Um gato idêntico àquele que fora meu melhor amigo antes que uma drogada como eu surgisse e, insensatamente, se interessasse mais pelas histórias de uma revista pornô do que com o que estivesse atravessando a rua.
Comecei a chorar. E não consegui mais parar. Eu era a pessoa que, anos atrás, eu tanto tinha odiado por levar meu gato de mim quando eu mais
precisava da companhia dele. Eu disse à menininha que faria tudo o que ela quisesse. Se ela quisesse um outro gato, ficaria feliz em comprar... Ela olhou para mim - e tentou me consolar! Seu gato é atropelado na rua por
causa das minhas loucuras com drogas, e ela tentava fazer com que eu me
sentisse melhor. Ela deu a volta no carro, onde eu estava encostada. Eu não conseguia encará-la.
Sentia uma vergonha tão grande que não conseguia me mexer.
- Por favor, não chore.
Céus, ela até tinha a voz parecida com a minha!
- Por que está tão triste? Não precisa se sentir tão mal.
Eu olhei para ela e vi uma coisa da qual eu sentia muita saudade. Uma
necessidade muito grande de perdoar. Que coração! Essa garota podia amar o
país inteiro e não deixar que ninguém se sentisse só.
- Quando eu tinha a sua idade, tive um gato muito parecido com o seu. Ele chamava Júpiter, e acho que era o meu melhor amigo. Alguém o atropelou, eu ouvi o barulho e fui correndo ajudá-lo. Lembro-me de ter ficado espantada com a rapidez... com que a morte saciou sua fome.
Por um momento só havia o vento. Nós não dissemos nada. Então ela olhou para mim e perguntou: - Você perdoou a pessoa que o
atropelou?
Eu me encolhi do lado do carro e disse que Júpiter fora atropelado por alguém que batera nele e fugira. - Acho que ele foi pro céu, mas sinto muita saudade... perdoei a morte dele, mas acho que não esqueci que alguém pegou meu gato e não para dizer que sentia muito.
Ela estendeu a mão, e a camisola dela, de flanela, me fez rir. - Meu nome é Danielle. - Ela apertou minha mão com firmeza.
- O meu é Laura Palmer. - Dei um abraço nela e ela apertou os braços em torno de mim, carinhosamente. - Foi muito bom conhecer você, Danielle - me pus de pé.
- Você é uma menina muito especial por saber perdoar com tanta facilidade. Ela segurou minha mão um pouco, e depois de pensar com cuidado, olhou para mim e disse: - Quando ouvi o barulho, fiquei com medo de que o gato estivesse machucado... Mas saí e vi você chorando mais do que eu por se lembrar do seu gato, e muito triste por ter machucado este. Para que fazer
você se sentir ainda pior por algo que tenha feito? Eu gosto muito de você, Laura Palmer.
- Danielle, você é ainda mais especial porque vem com muito açúcar por cima. - Olhei para o gato e de novo para ela.
- Minha mãe vem pegá-lo.
A pequena Danielle, mais que qualquer pessoa, fez com que eu soubesse que ainda havia chance de tudo melhorar. Cheguei até a pensar que um outro
gato seria muito bom...
E então me lembrei que tinha soltado meu cavalo. Só espero não tê-lo
mandado para um lugar em que ele possa se machucar, ou que não cuidem dele
como se deve. Acho que devia ter pensado nisso antes de ter me deixado levar pelo impulso de libertá-lo, para fazer o que quisesse e ir aonde tivesse vontade... sozinho.
Cara, eu passei dos limites essa semana, não? Que coisas terríveis e ao mesmo tempo mágicas aconteceram comigo! Por quê? Será que devo voltar à vida e arranjar um emprego? Ou ainda estarei voando em direção à morte? Só sei que quis devolver aquela caminhonete imediatamente, deixar a droga para trás e chorar um pouco enquanto voltava a pé para casa. Talvez mamãe me fizesse um chocolate quente, e eu conseguisse entender tudo o que tinha acontecido, ficando ali com ela.
Deixei a caminhonete e vim para casa. Andando. Só queria chegar.
Estou escrevendo agora.

Posted by LAURA PALMER 4:04 AM




13 de novembro de 1987
Querido Diário,
Estou em casa. É cedo. Leo e Bobby não ficaram muito felizes por eu querer voltar para casa. Leo tinha decidido que ia ser uma noite de coisas novas e "incomuns". Bobby estava muito, mas muito alto mesmo, e achei que Leo
tinha dito a ele que falasse comigo para topar tudo o que Leo quisesse, porque eu nunca o vi tão interessado em manter-me em algum lugar. Seus olhares constantes para Leo me fizeram pensar que Bobby se sentia culpado,
ou talvez em dúvida se devia ou não me fazer entrar nisso. Balançar o queijo na frente do rato... um ratinho loiro e muito assustado. Está vendo a ratoeira? Está? Então vai. Você sempre quis isso, lembra-se? Leo balançou a cabeça quando eu disse que tinha resolvido ir embora porque algo acontecera e tinha me deixado tão... e parei. Não acabei a frase porque vi de repente que os dois não estavam em condições sequer de fingir que se importavam com um gato lá na rua. Um animal branco, que talvez ainda estivesse lá... ou como eu o imaginava enquanto dirigia devagar, com os faróis apagados, no caminho de volta. Vi seus olhos mortos presos na imagem de uma mãe, provavelmente cansada e preocupada em saber se sua filha estava bem. Perguntando-se, enquanto erguia o corpo do animal, se a morte parara logo ali. Talvez ela pensasse no trabalho que teria no dia seguinte, em andar sem rumo pela rua... tão cansada, sempre cansada.
Acho que estou pensando em mim mesma. Estou cansada. Sou eu que pergunto: será a morte apenas a imagem congelada do corpo de um animal? As cinzas de meu avô, apenas um jeito mais fácil de caber dentro da urna? Ele é apenas um corpo, no fim das contas: por que não enfeitar o que sobrou?
Quando eu morrer, acho que vão me enterrar. Espero que o gato tenha sido enterrado. Pensei em ficar para ajudar, mas tudo estava perto demais. O corpo ali, como uma mensagem. Talvez os atropelamentos sejam mais do que parecem. Mensagens, como foi ontem à noite... ou exemplos aos quais nunca prestamos atenção. Isso é o que é. Silêncio. Eterna privacidade. Eu não queria ficar essa noite com os rapazes. Queria vir para casa, dormir na minha cama, ser outra vez uma menininha. Fingir uma doença ou cólicas e pedir à mamãe para cuidar de mim. Ler A Bela Adormecida ou O Pequeno Polegar, beber café enquanto ela vira as páginas e toma conta de mim.
Era o que eu queria, mas sabia que acabaria ficando naquela casa. Sair de lá às escondidas, antes de o sol nascer... desligar o alarme do despertador segundos antes de ele tocar. Despir-me completamente e enfiar-me embaixo dos lençóis. Eu sabia que lhe contaria o que aconteceu.
Simplesmente. Com uma caneta e nenhum som. As palavras têm sido estranhas para mim nesses últimos dias. São só mentiras, o tempo todo. Outra vem para ajudar a mentira anterior a sobreviver... tornar-se real. As palavras de Bobby têm sido como pequenas facas. Sei que ele não tem intenção de me magoar, mas as surpresas com meu comportamento outra noite, ontem à noite, a diferença que ele vê quando estou drogada... e tem acontecido muito
isso. Ele diz que jamais pensou que eu fosse tão selvagem. Acho que ele quer dizer que jamais imaginou que eu fosse tão má. Ele nunca conheceu a Laura Palmer como a floresta, as árvores, a terra conhecem. Sempre trêmula e com raiva, ameaçada, paralisada, incapaz de correr. Ou nunca a escolheu.
Ensinaram a Laura Palmer que ela merece a dor e um tipo de intimidade em que a maioria das pessoas nunca pensa ou fala porque acha errado. Laura
Palmer? Ela nasceu sem escolha. Uma noite há muito tempo disseram-lhe bem
baixinho que ela iria gostar ou teria que morrer.
Eu fiquei na casa. Leo quis que eu bebesse alguma coisa. Relaxasse. Ele disse que me queria do jeito que tinha sido. Disse que eu prometera a ele. Garantiu que eu estaria em casa a tempo... ninguém ficaria sabendo. Ele se ajoelhou na minha frente e agarrou meus pulsos com força. Eu pensei em BOB
e fechei os olhos. Eu devo ter gemido, emitido qualquer som, porque ele
disse: "Eu sabia. Sabia que isso queria dizer alguma coisa para você".
Abaixou as mãos para as minhas. Segurou-as mais gentilmente. "Ótimo. Sabia que você ia entender. Eu vi isso." Ouvi Bobby se levantar da cadeira e Leo fazê-lo parar. "Senta, Bobby. Já. Laura vai buscar uma bebida para você.
Ela vai abrir os olhos, e vamos todos beber um pouco."
Abri os olhos devagar. Leo deixou minhas mãos em meu colo. Me levantei e fui para a cozinha pegar a bebida para Bobby. Podia ouvir os dois
conversando na sala. Começaram a discutir. Achei que era por minha causa, ou os planos para a noite. Realmente me incomodava quando eles discutiam. Eu não queria mais isso. Fui até onde eles estavam e os fiz calar a boca.
Queria que eles se calassem. Eu faria ou diria tudo o que os "jogos" da noite exigissem. Não precisavam brigar por isso. Eu queria me divertir. Queria curtir um barato. O barato que eles estavam. Queria esquecer o que
acontecera lá fora na rua.
Bobby foi até a cozinha e me disse que eu tive sorte de Leo não ter me dado um bofetão por ter lhe mandado calar a boca dentro da casa dele. Eu
disse que não era sorte. Sabia que Leo gostava de mim. Se alguma vez ele me batesse era porque fazia parte das regras.
Bobby disse que gostaria de viajar, só nós dois, na próxima semana talvez. Ele sentia saudades de estar com Laura. Eu o odiei por isso. Tive vontade de bater nele. Em vez disso, disse que eu não sentia saudade nenhuma de Laura. Disse que ele nunca mais a veria.
Ficamos um bom tempo ali sentados, só bebendo, cheirando e olhando Leo: não sei para quê, mas sabia que tinha que estar pronta. Talvez ele fosse
legal, talvez não. Eu não ficava olhando para Bobby o tempo todo. Quis ter
certeza de que ele me veria com Leo. Não gostava da saudade que Bobby sentia da doce Laura. Não posso acordá-la agora. Ela não gosta de noite assim. Não iria querer brincar. Eu sim. Eu tinha necessidade de ser diferente dela... tinha que chacoalhar o que quer que chamasse BOB à minha janela. Chacoalhar o aroma da inocência. Eu decidi uma coisa. Disse a eles que queria ir lá fora, no meio da mata. Leo pareceu gostar e olhou para Bobby. Virou-se para mim e indicou com a cabeça o meu copo vazio. "Você tá a fim de foder?" Eu disse que estava, mas não queria mais ficar lá dentro.
Não gostava da luz. Disse que ela tornava as coisas fáceis demais.
Comecei a pegar um pouco de pó para levar até a floresta e Leo me olhou como se eu estivesse roubando ou algo assim. "Olha, eu roubei essa merda, certo? Sou eu que vou fazer a sua noite... e não vou começar a baixar
quando estiver lá fora na floresta." Ele disse que só estava olhando. Disse que eu podia relaxar. Então se aproximou de mim, bem perto. Disse que gostava quando eu me agüentava por mim mesma, mas não haveria nenhum quarto para isso lá na floresta.
De repente me vi na escuridão de braços abertos e girando, girando, Leo e Bobby no meu campo de visão cada vez que passava por eles... Depois aos
poucos comecei a sonhar com Leo, seus olhos bem grandes, gostando, os lábios entreabertos, as mãos se juntando e devagar aplaudir meu espetáculo.
Antes de sairmos da casa, Bobby veio do banheiro e disse que estava
cansado, não estava a fim de andar. Disse que sabia que essa noite era para mim e para Leo. Disse que talvez me telefonasse em poucos dias. Leo sorriu quando Bobby saiu batendo a porta.
- Bobby é um cara esperto.
Concordei, mas por dentro queria matar Bobby por me fazer sentir tão mal. Ele queria que a pura e doce Laura corresse atrás dele, fosse andando ao lado dele para casa, de mãos dadas com ele. Por um instante ele me fez querê-la. Não era seguro. Ele não podia entender como isso era inseguro para todos nós, especialmente fora daqui. A floresta precisava me ver essa noite. Precisava ver como eu tinha crescido, no que tinha me tornado. Então poderia dizer a BOB que se afastasse de mim. Que ele soubesse que seu trabalho comigo estava terminado.
Leo veio até mim e escorregou a mão por dentro de minha blusa, fixou os olhos nos meus, seus dedos encontraram os bicos. Olhando-me nos olhos, sem
deixar que eu desviasse os meus, ele disse: "Você não quer perdê-lo, não
quer perder ninguém".
Ele liberou meu olhar; minhas pernas quase não me sustentaram. "Leve-me a algum lugar, faça-me esquecer." Segurei no braço dele para recuperar o equilíbrio. Ele disse que estava pensando em uma coisa. Disse que eu podia me assustar mas que estava tudo bem. Disse que gostava de mim depois de tudo o que tinha acontecido nessa noite e realmente podíamos nos tornar mais íntimos. Ele queria estar comigo pela primeira vez, sozinho.
Perguntou se eu gostava de me assustar.
Eu disse que às vezes aconteciam coisas assustadoras, mas que desapareciam pela manhã. Disse que queria ficar realmente excitada, que precisava sentir isso. Há muito tempo que não sentia. Tinha estado muito ocupada fazendo isso para os outros.
Quando saímos da casa, ele me vendou. E cochichou: - Está sentindo a
escuridão?
Eu disse que sim.
- Ótimo. Vou levar você para dentro dela. Como você gosta. Eu guio, e você só me acompanha até eu mandar parar.
Começamos a andar, e quando o fizemos, senti perto as árvores acima,
percebi o vento, diminuindo até parar, incapacitado de voltar para o céu... Ouvi Leo respirar. Senti sua mão forte em minhas costas. Quis dizer
a ele que estava com aquela sensação na barriga. Aquela que faz você se
soltar, querer coisas... Mas ele não me deixava falar. Disse que faria tudo sem falar até precisar saber alguma coisa de mim. Disse que sabia muito bem como estava me sentindo sem que eu precisasse dizer.
Me pareceu um tempo longo antes de pararmos. Como não sabia o que fazer, esperei. Por uma ordem. Quando por fim paramos, ouvi-o começar a me
circular, os passos abafados pelas folhas no chão. Sentia os olhos dele como se fossem mãos, subindo e descendo, seguindo uma e outra curva. Ele parou atrás de mim.
- Pode guardar um segredo, menininha?
Não estava certa se devia responder.
- Tudo bem, vá em frente e me responda.
- Sim, sei guardar segredo.
De repente comecei a sentir o mesmo cheiro profundo da floresta.
Conhecia-o bem. Senti meus pés se firmando, e eu tinha que soltar a cabeça, relaxar... lutar contra ela. Lembrar-me do que aquilo significava.
- O segredo é que às vezes, bem aqui neste ponto, eu ouço vozes. Percebo que não estou só.
- Que vozes são essas?
- Vozes que não conheço... Mas às vezes, se fico bem quieto, descubro que posso sentir pessoas à minha volta. Posso ouvi-las falar sobre mim, mas se tento vê-las, desaparecem completamente.
- Está ouvindo vozes agora?
- Acho que ouço bem baixinho. Vindas dessa direção. Isso assusta você?
- Acho que não. Eu estava preparada para a chegada de um ônibus lotado de caminhoneiros e começar alguma cerimônia estranha... De repente senti-me totalmente exposta. Gostaria de saber quantas pessoas haveria por ali.
- Vou ajudar você a sentar. Aqui.
Leo me sentou e percebi que estava numa cadeira muito confortável, ali no meio da floresta. Que lugar era aquele? Será que já o vira durante o dia?
Uma música começou a tocar. Estranhos sons de água, e algo que não pude identificar... e um tambor... baixo. Sentia-o em meu peito. Estava tão alto que não podia mais perceber pelo som se havia ou não alguém perto de mim.
Alguém falou em meu ouvido: "Espere aqui... relaxe. Curta".
Não tenho certeza se consigo descrever as cinco horas que se seguiram. A música era constante, um ritmo que me movia e machucava mais que qualquer outra coisa. Mais que as mãos que de repente estavam em mim, lábios em meu pescoço, mãos no meu peito, coxas, rosto. Vozes em meu ouvido, falando
baixinho... se afastando.
Acho que havia três mulheres e pelo menos quatro homens, incluindo Leo. Eu estava amarrada, obviamente, à cadeira com uma corda que apertava minhas mãos quase ao ponto do desconforto, o que eu sabia fazer parte do jogo, tudo muito planejado. Toda e qualquer fantasia que alguém pudesse ter nas horas tardias da noite, com exceção de animais, foram realizadas em mim, comigo e para mim. Era como se eu tivesse engolida por um sonho, perfeito de todas as maneiras. Minha única responsabilidade era manter minha cegueira e permitir a cada um que viesse e ficasse comigo.
Podia ouvi-los, os outros que estavam na fila esperando. Apenas vozes na floresta, cujos corpos tornavam-se imagens que eu podia ouvir, vê-las
através dos sons que faziam... tudo se tornara muito sensível. Eu podia
ouvi-los a noite excitando-se uns aos outros ao ponto de pequenas convulsões, milhares de pequeninas ondas de luz, água, eletricidade, correndo através deles. Todos reagiam com estranho prazer e assombro... uma sede quando alguém alcançava o clímax. Mesmo eu, sentada longe deles como se estivesse numa vitrine (mais um troféu que uma viciada em drogas), senti prazer nos sons ao redor de meus pés.
Essas pessoas, de idades variadas, passavam suas noites na floresta,
esquecendo nomes e histórias, usando somente seus sentimentos e desejos mais básicos, para serem amarradas, tocadas, desejadas e completamente aceitas, não importava como fossem fisicamente, ou quem eram no trabalho ou na escola nas manhãs seguintes. Estava escuro, estranho e às vezes quase intoxicante. Eu oscilava, a cabeça pesando na escuridão. A energia era tão densa, eu quase podia sentir o ar se separar, abrindo-se para que eu pudesse me mexer. Todo e qualquer nervo do meu corpo tinha algo a dizer... um grito embaixo da pele, constante e muito mais alto que o habitual porque eu não podia senti-lo chegando. Eu podia jurar que havia horas que eu estava sensível demais para sentir os dedos que me tocavam. Via-os pela maneira como sentia através da pele... cada toque como linhas luminosas por trás de meus olhos.
Quando vi novamente, com meus olhos, a imagem foi de minha casa. A luz incidindo do lado, imediatamente antes de o sol nascer... uma névoa de luz amarelada que ainda lutava com a sombra que não concluíra sua estada.
Levei um minuto para conseguir focar. Leo estava sentado ao meu lado no
caminhão dele. Ele disse que estava indo, e que a mulher dele logo estaria em casa. Para nos encontrarmos novamente, deveríamos planejar muito bem.
Eu tinha me esquecido da mulher dele. Shelley. Muito bonita.Era garçonete do Double R, junto com Norma. Por isso disse a ele que me telefonasse. Ele disse que tinha uma coisa da qual eu poderia precisar enquanto ele estivesse fora.
Ganhei um saquinho cheio até a boca. Leo aconselhou-me a não abri-lo até que estivesse sozinha. Beijou-me, ficou olhando eu entrar em casa e foi
embora.
Tive uma fantasia enquanto subia a escada para meu quarto que mamãe
acordava... e perguntava como tinha sido a orgia. Eu contei em detalhes, e
ela começou a revelar suas próprias experiências de estranhas noites na
floresta. Ela queria ligar para os amigos e contar que sua filha participara de uma orgia... e não era maravilhoso? A fantasia terminou quando cheguei no alto da escada e vi que a porta do meu quarto estava
escancarada - parei petrificada. Olhei para o quarto de meus pais. A porta estava bem fechada.
Quando voltei-me, o que vi foi aterrorizante. Vi claramente o sapato de um homem atrás da porta, e então ele apareceu, sorrindo. Era BOB. Com uma das mãos agarrou-me o pulso, e com a outra tapou minha boca. "SHHHH." Com um tranco ele me puxou para dentro do quarto. A porta bateu atrás de nós.
Pare. Só pode ser um sonho. Estou muito drogada. Não dormi. Não acorde mamãe e papai agora ou saberão que estive fora. Farão perguntas às quais não poderei responder. Pense.
Eu comecei a pirar, fugindo e lutando contra os pensamentos, as palavras, a imagem daquele lugar obsceno. Afaste-se de mim, BOB!
FAÇO O QUE EU QUISER.
Afaste-se desta casa! Deixe-me em paz ou juro que vou encontrar um jeito de você se arrepender.
NÃO POSSO ME ARREPENDER, LAURA PALMER.
Veja onde estou por sua causa, por sua sordidez, sua fraqueza. Você é uma criatura nojenta.
NENHUMA CONSCIÊNCIA, NENHUMA CULPA. VOCÊ MESMA DISSE. VI QUE VOCÊ SE FODEU NA NOITE PASSADA. UMA CORUJA ME CONTOU. ENTROU MESMO NESSA TAL DE COCA,
NÃO? MENINA SUJA, LAURA PALMER, JÁ DEVIA SABER QUE NÃO PODE ME IMPRESSIONAR... NÃO ESTOU INTERESSADO NO QUE VOCÊ FAZ COM SEUS AMIGUINHOS VICIADOS. VOCÊS SÃO TODOS RIDÍCULOS.
Sai da minha cabeça. Agora!
NÃO.
Deixe-me em paz, seu cretino nojento. Como você ousa! Não quero você aqui! Vai embora! Vai embora! Já estou cansada de aceitar você toda vez... Eu
odeio você. Sai!
ISSO NÃO DEPENDE DE VOCÊ, LAURA PALMER. DEVIA OBSERVAR ESSE EGO. É
INACREDITÁVEL.
Vai se foder.
CHORAR TAMBÉM NÃO VAI ME IMPEDIR DE FICAR. SOU IMUNE À SUA AUTO PIEDADE E SUAS QUEIXAS EMOCIONAIS E ADOLESCENTES, SUA PUTA LÉSBICA E FODIDA. SOU A MELHOR COISA DA SUA VIDA.
Não é não. Isso não é verdade!
NÃO?
Pare de mentir para mim. Tenho coisas melhores na vida que você. Eu sei disso.
AH, É? DIGA UMA.
Meus pais.
DUVIDO. ELES NÃO ME IMPEDEM DE LEVÁ-LA, NÃO É? NENHUM DOS DOIS CONVERSA COM VOCÊ COMO COSTUMAVAM. PARARAM DE FAZER CARINHO EM VOCÊ HÁ MUITO TEMPO. ELES TOLERAM VOCÊ. EU SOU MUITO MELHOR.
Donna.
A "MELHOR AMIGA" COM QUEM VOCÊ NUNCA CONVERSA? AQUELA QUE VOCÊ TROCOU
PELAS DROGAS? VOCÊ ESTÁ REDONDAMENTE ENGANADA.
Tenho a mim mesma. Sou melhor do que você!
NÃO. EU TENHO VOCÊ. VOCÊ ME PERTENCE. NÃO FAZ NADA SEM MINHA PERMISSÃO. DIRIJO SUA VIDA, FAÇO DE VOCÊ AQUILO QUE QUERO.
Não!
AINDA ESTOU AQUI.
Você não é real! Recuso-me a acreditar que você seja real! Estou só
imaginando você... eu crio você... eu posso parar! Você desaparecerá se eu
parar de acreditar.
TENTE NOVAMENTE. ESTOU AQUI HÁ ANOS E ANOS. SUA CRENÇA NÃO ADIANTA NADA. SUA OPINIÃO É NADA. PENSE NISSO. VEJA A SUA VIDA. VOCÊ FICA FODENDO POR AÍ COM AS PESSOAS. DROGAS O TEMPO TODO. LOGO FARÁ DEZESSEIS ANOS. SUA VIDA É
MERDA E VOCÊ AINDA NEM TEM DEZESSEIS ANOS. OLHE-SE NO ESPELHO E SE VEJA. VOCÊ É NADA.
O que... você quer?
QUERO VOCÊ.
Por quê? Para quê?
PRA ME DIVERTIR. ADORO OBSERVAR VOCÊ LUTAR CONTRA A VERDADE.
Que bosta de verdade?
SUA VIDA NÃO VALE NADA PARA NINGUÉM, INCLUSIVE VOCÊ MESMA. FAÇO-LHE UM GRANDE FAVOR. EU A ENSINO. VOCÊ ME DEVE LEALDADE. VOCÊ ME DEVE TUDO.
Eu não devo nada a você.
SOU A MELHOR COISA DA SUA VIDA.
Adeus!
EU ESTAREI POR AQUI.
Vai se foder.
LOGO, LOGO. EU IREI.
Pare.
VEJO VOCÊ À NOITE... LAURA PALMER.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!
Fique longe de mim desta vez. Você está na minha cabeça. Ninguém mais pode vê-lo ou ouvi-lo, portanto deve estar na minha cabeça. Não vou mais deixar você voltar a este quarto. Nunca mais. Você é só uma idéia. É um medo. É só uma criação da menininha que tem medo da floresta! Está vendo? Você não pode voltar agora, não é? Você não tem nenhum poder se eu não lhe der... Desta vez vou mantê-lo longe. Esta é minha vida! É minha! Você não tem lugar aqui... Ha! Eu tenho trabalho a fazer. Sono para dormir. Você está morto. Não é sequer uma memória.
Laura
P.S.: OLHE PARA A JANELA, LAURA PALMER.

Posted by LAURA PALMER 12:32 AM




15 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Desculpe por ter demorado tanto para escrever, mas tenho trabalhado muito! Há muita coisa que você não sabe.
Em primeiro lugar, resolvi fazer um trato com os Horne. Notei, quando
estive lá na última vez, que Johnny parecia desanimado, até mesmo malcuidado. Triste. Então propus a eles que tomaria conta de Johnny, três vezes por semana, durante pelo menos uma hora, uma hora e meia por dia,lendo, conversando etc., por um pequeno salário. Eles adoraram a idéia, e concordaram em me pagar cinqüenta dólares por semana, duzentos ao mês. O dinheiro me ajuda bastante com a cocaína, mas o melhor é estar perto de Johnny, porque ele me ama, não importa o que eu faça quando estamos juntos. Ele não me magoa, não me provoca ou quer dormir comigo, não me amarra e não me corta, ou qualquer outra das milhares de coisas que quero que as pessoas façam comigo o tempo todo... Elas sempre falam e me levam para algum lugar, querem sempre mais, cada vez mais. Só o que Johnny quer é que eu leia para ele. A Bela Adormecida é a sua preferida. Gosta de deitar a cabeça no meu colo e olhar para mim enquanto leio. Reservamos sempre um momento para ver as figuras, e em geral tenho que explicá-las, tanto quanto algumas partes da história, de um modo que Johnny possa entendê-las melhor. Em geral ele me olha como se estivesse confuso, perdido, como se tivesse medo de não estar entendendo nada.
Sempre paro quando vejo que ele está assim, e passo para uma outra coisa. Muitas tardes vamos para o gramado na frente da casa e brincamos de arco e flecha. Ele tem aquele búfalo de borracha no qual sempre atira. Dá um belo sorriso quando o acerta. É o seu barato. É uma cena muito estranha. Johnny no gramado, a grama criando um tapete verde sob seus mocassins, a flecha colocada no arco esticado, o sorriso. Ele atira depois de muito se
concentrar. A flecha parece disparar muito lentamente, Johnny baixa os braços, ergue-se na ponta dos pés, e espera... Bem no alvo. Ele dá um salto no ar, salta, salta... Vira-se para mim e dá aquele sorriso de felicidade.
- Índios! - exclama.
Cumprimento-o pelo tiro certeiro, e encorajo-o a tentar outros. Ele sempre repete. Preciso fazer muitas carreiras quando estou com Johnny, ou às vezes no banheiro... sempre que sinto vontade.
É terrível quando perco a paciência com ele. Aconteceu uma vez e me senti muito mal, até ter certeza de que ele esquecera o incidente ou me
perdoara.
Não entrarei em detalhes porque meu comportamento foi terrível. Em resumo, fiz uma imitação de BOB diabolicamente convincente. Foi cruel. Nunca me senti tão mal. Fiz o que pude para me desculpar e me explicar de todas as
maneiras tão logo aconteceu. Quis que ele soubesse que me dei conta e parei.
Saí e tirei um envelope e dois vidrinhos de dentro de minha bolsa para ficar bem doida. Assim eu conseguia pensar melhor. Fica mais difícil quando estou sem nada. Por isso Bobby e eu estamos nos vendo tão freqüentemente e de um modo tão inocente. Mas você não sabia disso, não é?
Muito bem, espera aí. Preciso ir até o buraco da cama... e esticar umas duas linhas antes que mamãe suba e me chame para lavar os pratos, recolher o lixo etc. Merda.
Não posso acreditar em como minha vida muda quando saio pela porta desta casa.
Voltarei assim que for possível.
Laura

Posted by LAURA PALMER 12:32 AM




16 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Desculpe por ter se passado um dia inteiro, mas mamãe e eu tivemos uma conversa na cozinha enquanto eu limpava os pratos, e isso durou quase quatro horas. Papai chegou e se juntou a nós durante uns quarenta minutos, depois subiu para se deitar.
Acho que Benjamin quer que ele trabalhe em algum novo projeto. Papai
simplesmente revira os olhos quando mamãe e eu perguntamos do que se trata.
Às vezes acho que minha mãe e eu podíamos ser grandes amigas. De vez em quando olho nos olhos dela e acho que já sentiu as mesmas coisas que eu.
Tenho a sensação de que ela é capaz de compreender minhas experiências, mas ela vem de uma família e de uma geração que não gosta muito de falar de coisas que não a deixam muito à vontade.
Talvez BOB não a deixe muito à vontade. Talvez papai também o conheça, mas mamãe não queira conversar sobre ele porque ficamos todos muito... envergonhados... sei lá.
De qualquer maneira acho que a conversa foi boa, porque ela estava muito contente quando subiu para dormir. Eu fiquei mais um pouco lá embaixo e
fui examinar a parede pela qual BOB sobe na minha janela. É surpreendente que ele ainda não tenha se matado ou pelo menos caído.
Nas noites em que saio furtivamente sempre sou ajudada a descer. Será que consigo dar um jeito de ele cair? Ele sempre encontra o caminho, e ainda quero Bobby Briggs entrando por essa janela para me aliviar... uma transa rapidinha quando meus pais estão dormindo ou fora de casa.
Foi isso também o que quis recuperar. Bobby Briggs. Estamos nos
encontrando como fazem os rapazes e as garotas da escola. É estranho. Estou me encontrando mais com Donna atualmente, e ela está com Mike. Acho que estão bem, mas eles me lembram um comercial de goma de mascar: "Felicidade e ambição, esporte e educação." Ha, ha, ha!
Na semana passada consumi todo um envelope de cocaína para conseguir sair com eles depois do cinema, comer um hambúrguer. Bobby e eu não estávamos a fim. Ele consumira uma tonelada de porcarias enquanto víamos o filme, e eu estava alta demais para sequer pensar em comer. Donna encheu a cara, e eu sabia que o resultado seria um monte de espinhas e as roupas mais apertadas no dia seguinte. Aposto que ela ganhou uns bons quilos. Mike é
um porco. Ele fica enfiando batata frita e hambúrguer dentro da boca, como se fosse absolutamente desnecessário mastigar. Eu juro!
Também não gosto do jeito como ele olha para Donna. Preocupo-me com ela porque ele me parece um idiota... acha que é um super-herói dentro daquela jaqueta de couro, o tempo todo. Merda. Não estou nem aí. Donna não é boba.
Não posso acreditar que o dr. Hayward já não tenha dito alguma coisa.
Então, o motivo de estar me encontrando com Bobby dessa maneira, de irmos ao cinema, jantarmos, estudarmos na casa dele, usarmos o carro do pai dele para ir a Pearl Lakes etc., é porque finalmente ele concordou em vender
cocaína para Leo. Para mim. Há muito tempo que eu esperava por isso, mas
tive que prometer que agiria como sua namorada novamente. Então topei.
Quando estou a fim, ou quando quero cheirar. Gosto muito de Bobby, mas ele jamais poderá compreender o que às vezes acontece comigo. O motivo de eu ir para a orgia com Leo, o motivo de deixar que ele me amarre e às vezes bata em mim, o motivo de tudo isso, além de um prazer estranho, é porque sinto que pertenço a lugares tenebrosos como aquele.
Pertenço a homens horríveis que na verdade são bebês chorões.Provoco-os e não demora eles estão me chamando de "mamãe", e enfiando a cabeça no meu
colo para chorar suas mágoas... e depois eu digo a eles o que me devem fazer. É assim que eles gostam. Pertenço a eles. Deve ser, ou não seria tão generosa com eles.
Digo a eles o que fazer comigo. Ordeno-lhes. E quando fazem, quando está bom e posso dizer a eles o que estão tentando, começo a falar o que estou sentindo. Eles são demais! "Vocês são muito, muito bonzinhos!" Digo que
mamãe está contente. E eles adoram. Homens e crianças, tudo ao mesmo tempo.
Todos eles, os amigos de Leo e de Jacques (preciso falar sobre isso!), são muito bonzinhos comigo. Acho até que estão lá por minha causa. Não sei. Já me enganei antes.
Então Bobby vende o pó pela cidade, e Leo vende do outro lado da
fronteira, no Canadá. Em geral recebo a minha parte, e sempre que encontro
Leo ele me dá um vidrinho cheio ou um envelope.
Bobby consegue bom dinheiro e todos estão felizes. Não é isso o que
interessa na vida? Outro dia uma coisa me deixou chateada. Bobby e eu fomos tirar meu dinheiro do cofre (eu não ia guardar milhares de dólares no buraco da cama), e ele me disse que Mike ia ajudá-lo a a vender.
Fiquei louca da vida e disse que se ele fizesse isso - e se Mike contasse para Donna -, eu jamais falaria com ele outra vez. Donna contaria ao pai dela. Eu tinha certeza. Isso eu não suportaria. O dr. Hayward ficar
desapontado comigo... isso sim me mataria.
Bobby disse que ainda não tinha muita certeza se devia. Mas o fiz
prometer, e ele prometeu. Depois disso fomos para a árvore onde enterrávamos a bola de futebol, perto da casa de Leo. A droga e o dinheiro eram trocados nessa bola de futebol. Leo sempre caçoava de Bobby pelos lugares que ele escolhia como esconderijo. "O craque do futebol", dizia. E Bobby é um craque. Pelo menos é o que pensam todos na escola.
Jacques disse que jogava futebol, até descobrir que não tinha que ser
socado por um bando de caras enormes o dia inteiro para conseguir dinheiro. Jacques vivia na floresta numa cabana, junto com um papagaio chamado Waldo. Ele fala e sabe meu nome perfeitamente. Jacques, Jacques Renault, trabalha do outro lado da fronteira em um cassino qualquer. Ele é um cara grandalhão, gordo, mas às vezes me faz perder a cabeça. É do tipo bebezão-homenzarrão, mas sabe um bocado de coisas sobre o corpo e uma mulher, muito mais do que Leo.
Uma noite, fui por minha conta à casa de Jacques, ficamos muito loucos e entramos num barato sexual dos mais estranhos. Eu estava num ponto que ele disse apenas "Mostre pra mim, menininha... mostre pra mim", e eu topei.
Waldo repetia tudo o que dizíamos naquela noite, até quase amanhecer.
Quando voltei para casa ainda ouvia Waldo dizendo: "Mostre pra mim...
mostre pra mim... menininha... menininha". Foi nessa manhã que saquei que as orgias de Leo aconteciam em frente à cabana de Jacques. A cadeira estava lá... Sentei nela e saquei.
Já, já eu volto. Tenho planos para esta noite.

Posted by LAURA PALMER 2:17 PM



21 de dezembro de 1987
Querido Diário,
O Natal já está aí. Comecei a procurar outro trabalho, alguma coisa que nem me paguem a cada suas semanas... dinheiro de verdade. Mamãe está começando a ficar preocupada por eu estar comendo tão pouco. Eu adoro. Juro que junca gostei tanto do meu corpo. Ainda tenho seios muito bonitos, quadris bem torneados, mas sem as gordurinhas de antes. Nenhum dos caras com quem saio tem se queixado. Todos acham meu corpo ótimo.
Preciso trabalhar para ganhar mais dinheiro, e também para dizer à mamãe que estou comendo fora. É impossível continuar forçando a comida garganta abaixo como venho fazendo.
Leo e Jacques me deram alguns exemplares de Fleshworld Magazine outra
noite. Abri e fiz algumas daquelas poses para eles, dancei um pouco, coisas que eu tinha inventado... e eles ficaram me olhando, até nós três não agüentamos mais e começamos uma brincadeira.
Sei que pode parecer sujo, mas só estou fazendo o que de repente costumava fazer... Inventar um espetáculo para outras pessoas apreciarem, enquanto na minha cabeça mergulho em um sonho. Uma platéia enorme, pelo menos cem pessoas. (Faço isso porque quanto mais pessoas, mais me parece que está
tudo bem, e não que eu esteja fazendo uma coisa ruim ou proibia.) Todas elas, homens e mulheres, ficam me olhando. Olham eu me mover, ouvem os pequenos sons que saem pela minha boca quando começo a me excitar... Imagino um homem ou uma mulher... às vezes os dois... e os vejo na primeira fila, completamente ligados. Digamos que seja um homem para ser mais fácil de descrever. Então eu desço para a platéia, e estou usando alguma coisa preta e
transparente, e o pego pela mão para levá-lo ao palco comigo. Ele não quer, mas eu prometo que ele não vai ficar envergonhado e nem vou machucá-lo. Ele confia e vai para debaixo dos refletores. Digo baixinho a todo mundo que acho o cara lindo e conto por quê. Eu o descrevo para que ele adquira confiança e tenha uma ereção imediata. A platéia o adora, tanto quanto eu. Em geral mudo o sonho a cada vez, mas ele sempre acaba com o parceiro escolhido e eu trepando na frente de todo mundo.
Fico muito doida às vezes quando penso que BOB vai me ver nesse sonho e percebo que finalmente vou ficar livre. Então eu tenho essas revistas para onde as pessoas mandam suas fantasias para serem publicadas. Eu contei tudo isso ao Leo e ao Jacques quando eles me deram as revistas, e eles ficaram ali se divertindo com as fantasias que às vezes tenho. Os dois me aconselharam a enviar algumas e ver se seriam publicadas. Disseram que se eu topasse, eles produziriam a fantasia exatamente como eu as escrevesse. Exatamente como eu quisesse.
Acho que vou topar. Gosto da idéia de uma noite especial, planejada com antecedência por Laura Palmer. Talvez eu escreva aqui essas fantasias para que você saiba exatamente o que estou planejando, se elas forem publicadas. Vou pensar nisso.
Algumas fotos da revista são tão... sujas. Sujas até para mim, mas entendo por que algumas pessoas se impressionam com elas. Em geral são fotos de pessoas em algum lugar, ou com alguém totalmente inventado. Não há ontem nem amanhã. Nem horas nem minutos ou regras, pais, manhãs, nada com que se preocupar. Gosto disso, mas algumas fotos são de mulheres sendo capturadas e levadas por esses homens. Em geral não gosto muito dessas, pela simples razão de que... Não sei, mas me lembram demais as visitas de BOB. As mulheres são muito jovens, inocentes ou algo no gênero.
Gosto de ser levada por alguém, mas também gosto de provocar e de sugerir algumas fantasias e idéias. Não gosto de medos, mentiras ou gritos, e
algumas das fotos são assim. Tudo bem com a escuridão no sexo, desde que ela seja estranha, misteriosa, e não as trevas do inferno, dos pesadelos e da morte. Isso não é para mim. Gosto de coisa boa. Que seja quase mal, mas que dê para brincar com o mal, e não pegá-lo pela mão e enfiá-lo para dentro.
Preciso fazer compras para o Natal amanhã. Não tenho nenhuma idéia do que comprar para ninguém. Acho que não seria bom querer ganhar cocaína no
Natal... uma tonelada de neve branquinha e macia em cima de mim.
Até mais, Laura

Posted by LAURA PALMER 2:17 PM




23 de dezembro de 1987
Querido Diário,
Terminei a jaqueta de Donna, e são 4h20 da manhã. Não estou conseguindo dormir e acho que vou até a casa de Leo ou de Jacques atrás de um pó, ou quem sabe daquele Valium que Jacques me deu há algumas semanas. Foi ótimo. Talvez eu telefone antes. Não gosto de andar à noite pela floresta sem ter um bom motivo. Voltarei em um minuto,

Posted by LAURA PALMER 2:34 PM



Aqui de novo, e muito contente por não ter saído sem antes telefonar. Não sei se já contei sobre a noite em que me perdi na floresta. Quase morri de medo da escuridão e fiquei ali chorando até o céu começar a clarear e eu conseguir encontrar o caminho de volta. Ofereceram-me uma carona para casa, mas como eu tinha medo que papai chegasse em casa tarde, eu chegaria com Jacques ou Leo um pouco antes. Papai prefere sua filhinha como ela sempre foi... talvez ainda seja... Não.
Bem, falei primeiro com Leo, e ele disse que estava com saudades. Shelley tinha voltado do enterro da tia, e a herança que eles esperavam não veio. Ela teria que voltar na semana seguinte porque tinha alguma coisa para
receber. Perguntou se eu tinha trabalhado na minha fantasia. Contei a ele que
trabalhara um pouco, mas precisava ficar menos louca para isso. Ele riu e
disse que Jacques queria me dizer uma coisa. Jacques pegou o telefone e eu me desculpei por ter ligado tão tarde. Ele disse que só se incomodaria se eu não tivesse ligado, depois me chamou de "amorzinho" e eu sorri, mas não disse nada. Disse que Leo contara a ele por que eu tinha ligado, e que já tinha se
preparado para isso. Disse que no sutiã que eu estava usando outra noite, o de renda branca, ele tinha escondido o meu presente de Natal. Pedi que ele esperasse um pouco até eu encontrar, mas ele disse que Leo precisava usar o telefone. Shelley estava esperando que ele ligasse de algum posto, fora do Estado.
Aposto que, por hora, ele não quer estar com ela. Eu desliguei e fui
procurar o sutiã na gaveta. O sutiã de renda branca é um dos preferidos de Jacques. Tem um suporte de arame que faz meus seios ficarem muito bonitos. Encontrei-o... graças a Deus eu não tinha tido tempo de lavá-lo!
Dentro do forro do bojo havia um pacotinho, do tamanho de um maço de
cigarros só que mais fino. Que sorte mamãe não ter encontrado! Quando abri, percebi que o invólucro era uma página arrancada da Fleshworld, mostrando um cara com o corpo parecido com o de Jacques, ajoelhado na frente de uma loira muito bonita. Acho que era a mulher mais bonita que eu já vira nessa revista. Na foto, ela estava quase nua com um papagaio no ombro, e o cara beijava os pés dela como se a adorasse. No pé da página Jacques escrevera: "Lembrei de você, garota fantasia".
Dentro havia quatro Valiums, dois baseados, um quarto de grama de coca e um bastonete prateado, novinho em folha. Fiquei tão excitada que quase me esqueci da hora, e ouvi mamãe me chamar para saber se estava tudo bem. Voei para apagar todas as luzes, menos uma, enfiei o pacotinho de volta no sutiã e joguei tudo embaixo da cama. Pus a jaqueta de Donna no colo e fingi que tinha adormecido.
Pouco depois mamãe entrou no quarto, acordou-me delicadamente e me disse para deitar na cama. Fui brilhante no papel da inocente filha adormecida. Beijei-a, murmurei alguma coisa, e depois que ela saiu esperei uns quarenta minutos para me levantar. Peguei todos os presentes, espalhei tudo sobre a colcha e fiquei brincando no escuro, até poder enfiar uma toalha embaixo da porta e acender novamente a luz. Acendi apenas a do criado-mudo porque era mais sexy que a grande no teto.
Entrei numa fantasia profunda, drogada, feliz, séria, obscena e ainda
assim inocente. Mais tarde eu conto... agora estou tão sonhadora... tomei
dois Valiums, cheirei outra carreira de coca e fumei meio baseado. Um exagero, mas quero me foder se não me sentir absolutamente bem.
Acho que vou dar uma espiada nas Fleshworld antes que me escape. Ou eu conto a fantasia que acabei de ter, uma outra idéia que tive ao folhear as
revistas.
Noite, noite. L

Posted by LAURA PALMER 2:34 PM





Dia de Natal, 1987
Querido Diário,
Estou na sacada, tentando sintonizar os cânticos natalinos em minha
cabeça. Mamãe os tocou a manhã inteira. Gosto do Natal, mas com minha cabeça como está, mal posso suportar. Papai me pegou quando eu estava saindo e pediu para dançar com a sua garotinha preferida. Acho que há anos papai e eu não dançamos.
Lembranças das festas em Great Northern, o borrão das bandeiras e dos
pratos e dos cristais entrando em minha cabeça, como eu os via quando papai e eu rodávamos e rodávamos. Ele me girava com uma velocidade que fazia meu estômago saltar, e nós ríamos, ríamos, ríamos.
Essa dança desta manhã foi na sala de visitas. As luzes das árvores já estavam acesas para que mamãe pudesse preparar as comidas dentro do verdadeiro espírito natalino, e eu olhava o vermelho, o verde e o azul
passarem por mim. Olhei dentro dos olhos de papai para não ficar muito tonta, e vi que eles se acenderam, e uma lágrima se formou e escorregou devagar pelo rosto dele. O giro diminuiu e ele me abraçou com força, segurando-me como se temesse alguma coisa.
Mamãe veio da cozinha e disse que ver papai e eu abraçados daquele jeito na frente da árvore de Natal era o melhor presente que ela poderia
receber. Muitas coisas estranhas acontecem na vida. Na minha vida, quero dizer. Poucas horas antes daquela dança eu estava no meu quarto mergulhada num mundo completamente diferente. Espero jamais ter que escolher entre esses dois mundos. Cada um me faz uma pessoa feliz por diferentes motivos. Vim para cá para escrever a minha fantasia, mas está meio frio e bonito demais para pensar nisso agora. Pelo menos aqui e agora. Vou até o Double R para beber um café quente. Talvez encontre um reservado só para mim.
Volto logo.

Posted by LAURA PALMER 2:36 PM




Dia de Natal de 1987, mais tarde
Querido Diário,
Quando cheguei aqui, no Double R, imediatamente Norma me serviu uma xícara de café. Perfeito. Disse a ela que queria escrever algumas coisas
particularmente, algo para a escola, por isso vim para o reservado em vez
de ficar no balcão.
Antes de me sentar, peguei minha xícara de café no balcão e notei uma
velha muito quieta, sentada dois bancos adiante. Ela estava mergulhada em um livro cujo nome era Mortalha da Inocência. Ela virou a página, completamente absorvida pela leitura. Vi em seu prato que ela tinha comido um pedaço de torta de cereja e começava a beber um café.
Olhei para Norma, que sorriu, e eu balancei a cabeça como se dissesse "Que figura!" Uma senhora de rosto bonito e delicado, que saíra para comer uma torta, beber um café e ler um livro. Fui para o reservado e me sentei a
uma boa mesa. Já ia começar a escrever minha fantasia, quando... Shelley
Johnson surgiu do cômodo dos fundos.
A mulher de Leo é mais bonita do que eu me lembrava. Olhei para ela.
Examinei cuidadosamente seu corpo se mover, seu sorriso, sua voz. De repente me vi hesitar entre entrar numa disputa ou não ter nenhuma chance com ela. Então ouvi ela dizer alguma coisa a Norma sobre Leo. Algo como ele nunca estar em casa, ou quando está querer sair. Eu tinha vencido.
Senti-me uma puta por estar pensando nisso, mas pensei, porque já há um bom tempo vinha fazendo isso com ele... E vou continuar se ele quiser.
Sei que não era a isso que ela se referia, mas senti muita pena dela, ou jamais conseguiria ver Leo novamente. Eu não sabia como lidar com essa
situação.
Fiquei observando a velha no balcão tentar se levantar para sair.
Obviamente era difícil para ela, e por um instante senti vontade de ajudar... mas Shelley se adiantou.
Norma trouxe outro café e disse que aquela mulher ia muito lá, mas tinha muita dificuldade de se movimentar. As muletas ajudavam, mas ela lutava
para dar cada passo, como eu podia ver.
Norma disse também que há muitos velhos em Twin Peaks que não têm quem cuide deles. Não há para onde mandá-los... a menos que seja em Montana. A maioria preferia ficar aqui mesmo. É mais tranqüilo. Em geral eles se sentem bem. Isso ficou na minha cabeça. Um problema para ser solucionado. Eu poderia fazer mais do que ajudar a mulher a chegar até a porta! Ah, a Laura
competitiva, frente e costas. Nunca mais tinha me sentido assim desde a
escola primária. Fiquei animada em descobrir um jeito de ajudar os velhos
que Norma mencionou.
Deixei um bilhete para Norma quando paguei a conta. Disse que gostaria de conversar mais sobre um jeito de ajudar aquelas pessoas. Pedi a ela que me telefonasse quando pudesse.
Vou tentar pegar uma carona até a casa de Johnny com Ed Hurley. Posso
vê-lo daqui de dentro. Espero que ele esteja indo para aquele lado.
Logo nos falaremos, Laura
P.S.: Natal, à noite. Mais tarde eu conto, mas ouvi alguma coisa sobre "um telefonema que perturbou Norma", na cafeteria.
Quando eu estava com Johnny ouvi Benjamin falando com o xerife ou algo assim. Vou tentar saber o que foi mais tarde porque Benjamin ficou muito
chateado com isso.
Sei que Norma não me telefonaria logo porque Hank, o marido dela, a quem eu nunca vi muito apaixonado, matou um homem na estrada ontem à noite,
acho que quando voltava do Lucky 21, na fronteira.
Seja como for, ele vai passar um tempo agora envolvido com um processo de homicídio culposo. É bom que ele fique um tempo longe. Parece que Norma está sempre mal com ele. Sinto muito por ela. Não por ele.

Posted by LAURA PALMER 2:47 PM

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