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DIÁRIO SECRETO DE LAURA PALMER - 1988
(De Janeiro a Março)


3 de janeiro de 1988
Querido Diário,
O Natal foi interessante. Papai tirou três dias de folga e criou a maior dificuldade, sem perceber, para eu conseguir me drogar. Tive que fingir
cólicas pré-menstruais para poder ficar sozinha em meu quarto.
Ao subir a escada, parei quando ouvi ele dizer: "Mas estamos no Ano
Novo... estou de férias... Por que ela quer ficar sozinha?"
Ouvi mamãe explicar naquela sua vozinha delicada e muito sábia que eu era uma adolescente. "Os pais são uma chateação para os adolescentes,
Leland... Temos sorte que ela passe tanto tempo conosco. Ficou fora de
casa só por três horas durante o Ano-Novo, e voltou antes da meia-noite para celebrar conosco."
Mamãe estava fazendo um bom trabalho, então prossegui meu caminho para o quarto, em busca de privacidade e uma bem merecida carreira. Uma carreira cura todos os males.
Bobby e eu passamos um Ano-Novo realmente bom, como mamãe disse, durante três horas. Das oito e meia às onze e meia. Fomos para o clube de golfe, onde cerca de trinta casais tiveram o mesmo plano: pegar um cobertor e a droga de sua escolha (o álcool foi o grande campeão, embora Bobby e eu tenhamos fumado um baseado), e ficar abraçadinhos na grama olhando as estrelas.
Estávamos mais longe dos outros, mas perto o suficiente para ouvir,
enquanto fumávamos o baseado, os outros casais fazerem planos para o ano e
pedidos às estrelas. Bobby virou de lado e pôs o baseado na minha boca. Traguei, e lembro-me de ter pensado: "Ele vai falar alguma coisa muito séria... estou sentindo".
Ele deu uma profunda tragada, segurou, olhou para cima, soltou a fumaça... olhou para mim.
- Laura...?
- Oi, Bobby. - Eu estava me sentindo muito bem. Adoro um baseado.
- Laura, eu sinto muito que às vezes as coisas entre nós tenham que ser como são. Quer dizer, gostaria que nós dois... eu não sei.
- Ah, Bobby, vamos lá. Eu estou ouvindo você. Continue.
- Não posso dizer por você, mas às vezes sinto que estamos tão próximos... Mesmo quando não estamos dormindo juntos. Somos tão íntimos...
Virei-me de lado e apoiei a cabeça na mão. Há muito tempo não conversávamos. Também estávamos bem chapados.
- Continue, eu concordo.
- Outras vezes... sei lá que diabo é o quê. É como se eu estivesse fazendo da minha vida uma merda... toda a merda de Bobby Briggs... mas isso não me afeta como talvez devesse. Entende?
Queria entender, então dei a dica. - Você quer dizer, há uma parte de você que vai à escola, participa do coro, trabalha meio período, ou seja lá o que for, mas a outra parte, aquela que sente e se importa com as coisas, está lá dentro adormecida?
- É... É mais ou menos isso. Mas estou perdendo o mais importante.
Ele me ofereceu a última tragada do baseado. Eu aceitei, e fumei enquanto ele ainda segurava entre os dedos. Adoro o cheiro da pele de Bobby. Dei a última tragada, e ele continuou.
- Estive pensando que você e eu estamos juntos só porque é isso que
esperávamos que fizéssemos. Isso faz sentido para você?
Concordei. Sabia o que ele estava dizendo.
- Eu não quero que fiquemos juntos por causa de um trato que fizemos
porque... quero dizer, Leo e toda a "neve" na casa dele. Às vezes acho que isso não tem importância, outras acho que se você tivesse de escolher entre mim e a neve... Bom, acho que eu perderia.
Baixei os olhos para o cobertor onde estávamos sentados. Tentei ver o
xadrez no escuro, mas só enxerguei vagas sombras do preto e vermelho que eu sabia que tinha. Puxei um pedaço de lã nervosamente. Por fim consegui erguer os olhos para ele.
Disse-lhe que às vezes eu escolheria a coca sim, mas que eu escolheria a coca a qualquer outra pessoa. Disse que não queria magoá-lo, ou a qualquer outro. Apenas sentia que às vezes só era boa companhia para mim mesma, pelo que está acontecendo com a minha vida.
Ele disse que talvez entendesse isso, mas queria saber se eu achava que a coca era o problema.
Disse a ele, muito calmamente, que só tinha começado a gostar realmente da coca porque não tinha que pensar em "problema" nenhum. E que gostava de maconha pela mesma razão.
Lembro-me de dizer: "Não posso lhe contar nada, Bobby. Não posso
simplesmente. Entendo que você queira me deixar por causa disso, mas não
posso contar a você nem a ninguém". Eu sabia que a coca era um problema,
mas não era nada perto de BOB.
Ele não disse nada por um bom tempo. Depois me beijou. Beijou-me
longamente, e quando parou, e olhou para mim, disse que eu não conhecia
todos os problemas dele, e que ele tentaria entender as vezes que eu não
quisesse dar saltos de alegria. Algo mais ou menos assim. Depois disse que sentia que pertencíamos um ao outro, pelo menos naquele momento.
As coisas ficaram estranhas pelo resto da noite. Não de um jeito ruim, mas diferente da maneira como Bobby e eu costumamos ficar quando estamos juntos. Continuamos ali durante horas, e depois, e isso estou dizendo
sinceramente, fizemos amor.
Sem jogos, sem controles, sem ego, sem maus pensamentos ou pensamentos sobre qualquer outra coisa exceto sobre o que estava acontecendo. Foi fantástico. Nós dois achamos isso.
Sabia que amava Bobby naquele momento, e sei que o amo agora. Só queria saber se posso me permitir ter qualquer um desses sentimentos puros e
maravilhosos sem criar problemas com BOB.
Por que sempre, sempre tenho que pensar duas vezes sobre minha vida e meus sentimentos? Por que não posso simplesmente amá-lo, lutar junto com ele, beijá-lo etc., sem me preocupar se vou morrer por isso?
Por que outras garotas têm o direito de ser felizes? Por que não posso contar a verdade a ele?
VOCÊ NÃO CONHECE A VERDADE.
Você está aqui.
ESPERTINHA.
O que você quer?
SÓ CHECAR AS COISAS.
Ótimo. Estou aqui. Já checou. Agora vá embora.
VI SUA LUZ ACESA SEIS NOITES SEGUIDAS.
Você e todo mundo que passou na rua.
LAURA PALMER... SEJA BOAZINHA.
Você nunca me ensinou isso.
BOA. DEFINIÇÃO: NÃO SER RUDE.
Já estou num ponto em que nada mais me importa, BOB. Faça o que tiver que fazer.
NÃO TENHO QUE FAZER NADA.
Que bom para você! Agora caia fora da minha cabeça!
QUERO COISAS.
Não consigo ouvi-lo.
NÓS DOIS SABEMOS QUE VOCÊ PODE.
Diário, estou aqui sozinha em meu quarto. Tive um dia maravilhoso, e agora estou sentada na cama, por cima das cobertas, escrevendo em você. Sei que posso controlar isto. Sei que posso VER BOB PORQUE ELE É REAL. UMA AMEAÇA REAL. PARA VOCÊ, LAURA PALMER. PARA TODO MUNDO QUE ESTÁ PERTO DE VOCÊ.
SEJA BOAZINHA. FIQUE CONTENTE POR ME VER.
Nunca!
VOCÊ SÓ TORNA AS COISAS PIORES ASSIM.
Isso é impossível! Saia da minha cabeça, caralho!
GOSTO DAQUI. VOU FICAR MAIS UM POUCO.
Ótimo.
SEJA BOAZINHA.
Boazinha? Oi, BOB, é você? Que bom você ter entrado na minha cabeça. A porta está sempre aberta, você sabe. Por que nós dois não vamos dar um
passeio na floresta, BOB? Vamos! Vamos dar um passeio. Podemos jogar o jogo de hoje. O que vai ser... sexo?
NÃO. VOCÊ NÃO PRESTA.
Você está errado.
TENTE DE NOVO, LAURA PALMER.
Não vale a pena.
TENHO UM RECADO.
Recado de quem...?
DE UM HOMEM MORTO.
Estou ficando louca! Você não é real! É simples. Preciso procurar um
médico porque estou criando isto. Tenho que me cuidar. Calma. Preciso ter
calma.
RECADO: UM LUGAR ESTÁ SENDO GUARDADO PARA VOCÊ... LAURA PALMER.
Pare!
VOLTO LOGO.
Está vendo? Você está na minha cabeça. Ninguém mais além de você sabe os detalhes do meu sonho com a morte. Nem mesmo Bobby. BOB não é real.
Laura

Posted by LAURA PALMER 1:36 AM




7 de janeiro de 1988
AOS OLHOS DO VISITANTE
Sou algo constante
Um animal de caça
Tanto faz quantas vezes
Me atacam
Volto ao ninho
Sangrando
Eu fico.
Sou o maior dos tolos.
Uma falha no ciclo da vida.
Uma criatura sem nenhum
Respeito
Pela vida
Por si mesma
Por seus inimigos
Estou sempre ali
No caminho do inimigo.
Eu fico.
Não tenho nenhum respeito
Nada sobrou
Para o inimigo
Para o ninho
Para a planta
Para a caça.
Espero
Sem nenhuma escolha
Enfrento sua ameaça
Para levar esta criança
Pela mão até a Morte.

Posted by LAURA PALMER 1:37 AM




20 de janeiro de 1988
Querido Diário,
Tenho boas notícias.
Passei a tarde com Johnny. Ele estava especialmente de bom humor e decidi que o dia estava bonito demais para ficarmos dentro de casa.
Fomos para o gramado que se estende diante da casa. Fomos para o gramado que se estende diante da casa. É uma grande extensão de grama e flores, cuidadas o ano inteiro por um batalhão de homens e mulheres de dedos
verdes e todo o resto também. É um lugar perfeito para se passar a tarde de sábado. Em geral fico com Johnny às segundas, quartas e sextas, mas parece que ontem ele foi visto por um especialista, e Benjamin pediu-me para ir hoje ao invés de ontem.
Entre mim e você, Diário, hoje é muito melhor para mim. Ontem, pela
segunda vez na vida, faltei na escola. Passei o dia todo no meu quarto,
reorganizando as coisas. Mamãe e papai viajaram às seis da manhã para uma
convenção e passaram o dia fora.
Arrumei as gavetas e comprei uma tranca para a porta. Foi fácil instalar porque é um trinco de corrente. Algumas parafusadas mais tarde e minha privacidade estava garantida. Se tudo fosse tão simples assim! Nem
perguntei aos meus pais se isso poderia incomodá-los, porque sei que eles
pensam que só vou me trancar quando estiver lá dentro. Não é bem assim, mas por enquanto, até que eu consiga pensar em um motivo que eles aprovem, sem questionar... é isso aí.
Mergulhei nos números mais recentes da Fleshworld Magazine e cheguei à conclusão que está na hora de submeter minha fantasia a julgamento. Há um concurso só durante este mês, "A Fantasia do Mês". O vencedor recebe duzentos dólares. Garante-se o anonimato, embora seja necessário um endereço para correspondência. Meu cofre no banco dá direito a seis semanas de uso gratuito de caixa postal. Vou lá mais tarde para cuidar disso. Não haverá perigo nenhum se eu usar um pseudônimo.
Hoje ganhei um novo impulso. O tempo que passei com Johnny foi
maravilhoso, e eu diria até quase espiritual. Ficamos deitados de bruço na grama, um na frente do outro, e ele quis que eu contasse várias histórias.
Assim que eu terminava uma, ele aplaudia e pedia: "História!" Também não queria que eu lesse. Queria histórias reais. Experiências de vida. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: isso é impossível. Não posso contar a ele nenhuma das minhas histórias. Mas então me lembrei que eu não só tinha algumas histórias bastante adequadas como há muito me esquecera do nível mental de Johnny. Poderia recitar uma lista de compras com a entonação de um contador de histórias, e ele ficaria feliz do mesmo jeito. O que ele queria era estar envolvido em uma conversa cara a cara, em algum tipo de interação. Falar, e não conversar sobre alguma coisa.
Eu consegui parar de sentir pena de mim mesma e me lembrei das épocas mais felizes da minha vida, tanto quanto das tristes. Cada história me ajudava mais do que a Johnny. Tive a oportunidade de entender a que distância a felicidade estava de mim, e quanto eu sentia falta dela.
Como você pode imaginar, basicamente tirei vantagem absoluta dessa
oportunidade, só por ficar tagarelando com alguém, história ou não,
ininterruptamente. Nenhuma pergunta, nenhuma comentário, nenhum julgamento
sobre quem eu era ou para onde eu iria depois que morresse. Johnny é o
melhor ouvinte que conheço.
Senti-me renovada e até entretida, graças às mímicas faciais de Johnny durante a conversa. Ele sempre meneava a cabeça se estava entendendo... sorria quando eu sorria, e ao ouvir a palavra "fim", usava toda a sua energia para me aplaudir.
Por volta de duas e meia da tarde, a sra. Horne, a quem me surpreendeu ver sem sacolas de compras embaixo do braço e uma multa de trânsito na boca, chamou nós dois para comermos alguma coisa. Quando olhei o relógio, levei um susto ao ver que quase três horas e meia haviam se passado.
Antes que eu pudesse me levantar, Johnny me pegou pela mão e deu um dos maiores sorrisos que já vi em seu rosto. Ele fechou os olhos, voltou a abri- os e disse a sua primeira frase! Ele disse: "Eu amo você, Laura".
Poderia continuar escrevendo durante horas sobre como foi maravilhoso tudo isso, sobre o incrível salto que foi para ele, tanto quanto para mim. Foi o maior elogio que já recebi na vida.
Depois de comer fui resolver a questão da caixa postal. Vou ter que pensar muito bem nessa fantasia. Talvez não deva escrevê-la aqui, nas suas
páginas, porque, a menos que seja editada, na verdade nunca aconteceu comigo. Ou será que aconteceu?
Logo mais, Laura

Posted by LAURA PALMER 1:38 AM




1º de fevereiro de 1988
Querido Diário,
São tantas as minhas experiências sexuais que resolvi que é importante dar uma olhada ao menos nas iniciais das pessoas com quem estive.

B.
B.B.
L.J.
R.P.
J.C.L.
T.T.R.
D.M.J.
C.D.M.
M.R.M.
D.G.
G.N.
G.P.
D.L.
M.R.
M.F.
R.D.
T.T.O.
K.M.Y.
S.R.
A.N.
M.D.
J.H.
M.F.
C.S.
B.G.D.
L.D.
J.H. E todos os desconhecidos que eu não vi - na cabana.
T.P.S.
M.T.
G.L.
J.S.
M.V.L.
C.S.
D.M.J.
A.W.N.
M.S.R.
D.D.
S.C.
H.P.
B.E.

Posted by LAURA PALMER 10:54 PM




9 de fevereiro de 1988
Querido Diário,
Uma coisa muito estranha aconteceu.
Saí furtivamente de casa ontem à noite para encontrar Leo e Jacques na cabana. Ronnette deveria estar lá também, e eu estava muito a fim de vê-la. Aliás, há muito tempo que não converso com uma mulher. Donna não entenderia tudo isto. Precisava desesperadamente de uma amiga.
Comecei a andar, mas então resolvi chegar mais depressa (um grande erro), e fui para a Rodovia 21 na esperança de pegar uma carona de uns três
quilômetros até a cabana.
Passaram-se cerca de quinze minutos e apareceu uma máquina enorme,
parecida com o caminhão de Leo, descendo a estrada. Ergui o polegar e, é claro, o caminhão parou e a porta se abriu. Dentro da cabine havia quatro caminhoneiros bêbados e muito drogados, pelo que pude perceber, vindos da cidade. Um deles me ofereceu cerveja, e eu aceitei. Não porque quisesse, mas porque de repente tive medo de contrariá-los.
Disse onde queria descer, e pouco antes do ponto, terminei a cerveja e comecei a arrancar o rótulo nervosamente. Saquei que não íamos parar. Disse ao motorista que íamos passar o meu "ponto", e ele me disse que eu devia contar com isso ao pegar carona tarde da noite com um corpo como o meu, me oferecendo como eu estava naquele jeans e naquela camiseta.
Juro que eu não estava me "oferecendo" com aquela roupa, Diário. Meu único erro foi sair da trilha pela floresta e ir sozinha para a estrada. Foi um grande erro, mas eu... nem pensei nisso.
Passamos pelos Picos Gêmeos e continuamos subindo até um motel quase
destruído, e eu imaginei que estivesse fechado ou abandonado por causa da aparência. Mas nem preciso dizer que esses caras já tinham dois quartos lá e basicamente me carregaram para dentro de um deles. Gravei o número na porta: 207. Se eu conseguisse pedir ajuda, saberia onde estava. Não tinha muita certeza se sairia de lá inteira.
Todos eles eram incrivelmente briguentos. Gritavam a todo o pulmão e se comunicavam numa linguagem vulgar. Pensei então que se eu conseguisse me levantar sem que eles percebessem, poderia correr mais que qualquer um
daqueles bêbados. Fui o mais cuidadosa possível, mas no momento em que me levantei, três deles estavam em cima de mim.
- Aonde pensa que vai, benzinho?
- Hei, por que nós dois não vamos lá dentro e fazemos um número de dança particular? - Esse era o mais feio de todos.
Eu sabia que se não fizesse alguma coisa logo, algo para manipular a
situação do meu jeito, eles se tornariam violentos e com certeza me estuprariam. Sabia que não sairia de lá viva. Estava apavorada. Forcei um sorriso. - Ouçam... todos vocês. Um deles me olhou como se eu fosse doida por estar tomando essas "liberdades". Contudo, ele estava interessado no que eu ia dizer, porque fez os outros calarem a boca e se aproximar da cadeira onde eu estava. Consegui arrancar outro sorriso de meu rosto e continuei: - Olha, se vocês estão a fim de brincar... e vocês sabem o que estou dizendo... então vamos fazer a coisa direito, tá?
Um deles, o mais jovem, e o único que parecia demonstrar algum interesse por mim, sugeriu aos outros que ouvissem o que eu tinha a dizer.
Endireitei-me na cadeira e olhei para cada um deles, cuidadosamente. Pensei, vamos lá. Ou você convence esses caras, ou provavelmente vão estuprar e matar você. Não vá deixar que gente desse tipo acabe com a sua vida. Vá inventando alguma coisa enquanto vai em frente, Laura.
- Bom, eu não tenho nada contra bebida, drogas ou sexo, desde que seja tudo dentro da medida. Não tenho nada contra uma trepada, bancar a mamãezinha ou a menininha... principalmente a menininha. E nem vou me negar a fazer meu show especial, pra todos vocês.
Os quatro balançavam a cabeça e arrotavam, os olhos cada vez mais
arregalados.
- Acho que todos vão gostar muito do meu show... vou inventar algumas
coisas novas; o que vocês quiserem que eu faça, é só dizer no meu ouvido... Vamos fazer uns joguinhos, tá? Mas vamos ter que fazer um trato: vou pegar uma carona de volta para a cidade, e sair daqui do mesmo jeito que entrei. Sem violência.
Um deles achou que era macho demais para isso e disse: - Dou um murro na sua cara se estiver a fim, sua puta.
Respirei fundo para me controlar; inclinei-me na direção dele como se
fosse fazer uma confidência. - Se você sentir vontade de me bater, como
acabou de dizer, de dar um murro na minha cara, eu não poderei fazer... a
minha parte. - Engoli em seco. - Pode me chamar de puta, do que quiser, mas vamos fazer do meu jeito, tá...?
Precisei de uns quarenta minutos mais para que eles aceitassem em assistir ao meu show e parar com todas as atitudes agressivas e os gritos. Por fim ofereci um Valium a cada um na cerveja e pedi que sentassem na cama,
bebessem, que eu ia começar. Jamais senti tanto medo, eu juro. Esqueci dos pesadelos, dos carros em alta velocidade em pista molhada, esqueci até de BOB, simplesmente porque, comparado àquilo, eram quatro para um. E cada um deles era grande o suficiente para me comer inteira como aperitivo antes do almoço.
Eles se sentaram na cama, menos um deles, que eu pedi para ficar na porta para que ninguém pensasse que eu estava planejando fugir. Coloquei a
cadeira no meio do quarto. Uma cadeira de madeira com encosto alto... quase perfeita. Dei alguns passos pelo quarto e apaguei todas as luzes. Comecei a tirar a roupa devagar, e cada peça que eu tirava, tentava me lembrar onde a "jogava" (se eles apagassem conforme eu esperava), para me vestir depressa e dar o fora.
Eu falava comigo mesma. Imaginava estar chapada para conseguir relaxar. Eu morria de medo que algum deles fosse saltar em cima de mim e dizer: - Você é demais, benzinho. - Mas não aconteceu.
Lentamente dei início à seqüência da "menininha perdida na floresta"... o número preferido de Leo e Jacques porque eu me transformava em "Mamãe" muito depressa.
Eu rezava para conseguir mantê-los ligados o tempo suficiente de suas
pálpebras começarem a pesar. Fui até o cara que estava na porta, provavelmente o menos perigoso, ergui a mão dele, que estava surpreendentemente relaxada, coloquei-a sobre meu seio e falei suavemente
com ele.
Passaram-se uns bons quinze minutos até que ele começasse a me tocar e entrar realmente numa conversa comigo, e pude senti-lo se entregar, exatamente como Jacques. Um outro começou a ficar enciumado e disse: - Ei, que tal vir aqui?
- Calma, rapazes, eu não estou cansada. Jamais me chateio, e não me
esqueceria nunca de quem está aqui.
Tinha que manter todo mundo feliz. Girei a cadeira e pedi ao cara que
estava comigo para se ajoelhar. Falei suavemente com ele para que isso não parecesse uma ameaça, e comecei a dançar. Dei a volta pelo quarto...
prestando atenção a cada um deles... admirando-os, nenhum problema com
eles... mentindo... (Ninguém parecia ter sono!) Por fim voltei para a cadeira. Em seguida começou a parte mais quente de todo o número... uma seqüência agitada de senta-e-gira durante a qual todos eles se inclinaram para olhar mais de perto o que eu fazia. Continuei com isso e caprichei ao máximo... prolongando quanto pude.
Fiz o que foi possível inventar para mantê-los física e emocionalmente intoxicados. Todos pareciam cansados, mas ainda conseguiam aplaudir e assobiar.
Para resumir, foram três horas disso até eles apagarem e eu ficar apenas com um. Um grandalhão meio bobo, com uma barba de três dias e olhos
esbugalhados. Disse que eu tinha hipnotizado todo mundo. Perguntei se ele queria ir para o outro quarto. Ele tinha a chave. Me aproximei do ouvido dele e perguntei: - Que tal no caminhão?
- Claro, a escolha é sua, benzinho.
Então juntei como pude as minhas roupas, menos as meias e o sutiã, e me aventurei pela noite, tentando pensar num jeito de sair daquele lugar... o
mais rápido possível. Tinha que dar o fora. Me drogar. Chegar em casa.
Tão logo foi possível, sentei no banco do motorista e convidei o cara
fazendo biquinho com os lábios. Ele escorregou rapidamente pelo assento de vinil. Mergulhou a cabeça em meus seios, e eu pensei, agora, Laura,
encontre a garrafa com a outra mão... ali! Não vá tão depressa. Mantenha-o distraído, e BAM!
Acertei a cabeça do cara com a garrafa e começou a sangrar. Ele sangrava por todos os lados. Saltei do caminhão e comecei a correr, quase nua... mas e daí? Queria me livrar daqueles caras antes que eles percebessem o que eu tinha feito.
Fui para a cabana de Jacques na esperança de que ele e Leo estivessem lá, ainda com Ronnette. Quando cheguei, estava pálida, emocionalmente abatida. Explodi em lágrimas e caí de joelhos no chão. Ronnette me ajudou a deitar. Eu não parava de chorar! E ainda sentia vergonha de ter conseguido escapar daquilo tudo da maneira como fiz... Sentia-me a pessoa mais suja do mundo! BOB tinha razão, ele tinha toda a razão.
Agarrei-me ao braço de Ronnette e a ouvi dizer: - Ela está toda suja de sangue, vou ter que limpá-la. Esse sangue só vai fazê-la sentir-se pior.
A próxima coisa que me lembro é acordar na minha própria cama, com um
bilhete preso no meu pulso:

"Querida Laura,
Tentamos fazer o possível para acalmá-la, mas você estava histérica... e só pedia para voltar para casa. Acho que ninguém nos ouviu entrar, mas se isso aconteceu, conte a eles o que aconteceu. Agora está tudo bem. Você estava muito assustada... Quem sabe a gente se encontra logo para conversar um pouco ou qualquer outra coisa, tá?
Ronnette"

Então foi essa a minha noite. Você pode estar achando que aprendi, mas acho que por alguma razão isso não aconteceu.
Tenho pensado, desde que acordei esta manhã, que meu show para aqueles caras poderia ter sido melhor! Minha cabeça não consegue pensar em outra coisa, como uma fita que se repete num gravador, só que a cada vez o show vai ficando melhor, mais relaxado... Digo coisas mais excitantes. Para dizer a verdade, estou pensando em sair e procurar por aqueles caras!
Devo estar ficando louca... isso tudo está errado! Eu sou totalmente
errada!
Falamos depois, Laura

Posted by LAURA PALMER 10:55 PM


4 de março de 1988

Querido Diário,
Ontem passei o dia com Donna, e vi que não temos mais nada para dizer uma à outra. Claro que conversamos, e ela falou dela, mas o tempo todo eu não
pensava em outra coisa que não fosse ir embora. Podia sentir murinhos perfeitos e puros se fechando à minha volta.
Ela me levou para o quarto dela, fechou a porta e começou a me contar que ela e Mike logo iriam transar. Eles estavam fazendo todos os planos. Seria terça-feira à noite...? Não me lembro. Então ela me contou isso e esperava que eu dissesse: - Uau, Donna! Você tem certeza de que quer isso mesmo?
Pareceu-me, então, que Donna ia indo muito bem com o melhor amigo de
Bobby, Mike. Lembra-se dele? O comercial de goma de mascar? Só posso desejar que ele seja gentil com ela. Continuo achando ele um idiota... mas não tenho que trepar com ele, certo?
Divirta-se, Donna.
Laura

Posted by LAURA PALMER 11:07 PM





10 de março de 1988
Querido Diário,
Eu estava aqui sentada no meu quarto, pensando em Bobby. Antes não
tivesse contado a ele o que aconteceu com os caminhoneiros, porque desde então ele não falou mais comigo. Só contei a verdade, exatamente como
combinamos na noite de Ano-Novo. A gente quer ser sincero... A gente diz
que se ama... Só fiz o que fiz para sair viva de lá.
Benjamin Horne acabou de telefonar. Mamãe gritou lá de baixo que era para mim, e que era Benjamin Horne. Minha primeira pergunta, antes mesmo de
dizer "alô" foi: "Johnny está bem?"
Ele me pediu para sentar. Eu sabia que papai estava em casa, mamãe também... Johnny estava bem... "O que foi?
Ele disse que Troy tinha sido encontrado de manhã nas trilhas perto da fronteira. Tinha uma perna quebrada, e estava sem três ferraduras... sem falar de seu total estado de desnutrição. Ele não conseguira encontrar
comida. Benjamin disse que era mesmo Troy por causa da marca do Broken
Circle gravada nele.
Disse também que vira o guarda da fronteira atirar nele. Dois tiros na cabeça. Disse que parecia que alguém o tinha soltado. Prometeu pelo telefone que encontraria essa pessoa horrível e ela ficaria sabendo o que
fizera com um pônei tão bonito.
Eu desliguei.
Olhei à minha volta, e tudo começou a ficar cinza, preto, cinza, preto... Sou tão má! Para todo lado que me volto as coisas me dizem que sou uma pessoa maligna, errada, maldosa... Como fui capaz de fazer uma coisa dessas com Troy?
Se eu não fosse tão terrível, sairia, agora mesmo, para me encontrar com ele. Iríamos os dois para os campos onde poderíamos sobreviver de alguma
maneira.
Não acredito no que está acontecendo com a minha vida! Como é possível que um dia seja tão precioso, e o outro um pesadelo... um sonho mau que me leva para a morte... exatamente neste instante.

Posted by LAURA PALMER 11:20

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